Verdades com Aroma de Café
Todos os dias, acordo com muita vontade de tomar o meu café da manhã. Percebo que, com o passar dos anos, essa primeira refeição acabou-se transformando num momento peculiar do meu cotidiano. Se utilizasse o termo desjejum, não lhe estaria dando a conotação que merece, simplesmente pelo fato da riqueza de vida que estou sendo capaz de explorar nessa ocasião. Ela se mostra bastante propícia para eu deixar rolar a fita magnética de minha memória sensorial, esta que ainda conserva razoavelmente intactas muitas das sensações produzidas através dos órgãos do sentido desde a infância e, de modo especial, a olfativa. A quantidade de café que preparo é mínima, mas suficiente para espargir por toda a casa aquele aroma agradável e bastante provocante em relação às minhas reminiscências. Perfume! Cheiro de lar, de união, de aconchego! Cheiro de verdade, a única que me apraz continuar perseguindo: verdade amorosa, essa mesma, dourada como o fio de café fresquinho saindo do fundo do coador! Nada a ver com a verdade da razão – incolor, inodora e insípida, apesar de necessária como a água – reflexiva, mais apropriada a um modelo de vida que já nem tanto me seduz...
Durante a infância, costumava prestar atenção ao ritual das pessoas quando faziam “seus cafés”. Havia diferenças entre uns e outros. Na cidade litorânea onde nasci, não costumavam adoçar a água; esta, depois de fervida, era despejada sobre o pó, diretamente no coador. A adoçagem costumava ser individual. Lembro-me de como eu gostava de retirar, com aquelas pequeninas colheres de metal, o meladinho que acabava ficando no fundo de muitas xícaras, antes de serem lavadas – açúcar, sabor café. Na capital, o adoçamento podia ou não acontecer no momento em que se punha a água para ferver, mas os demais procedimentos eram semelhantes aos anteriormente descritos. No interior, entretanto, além do açúcar, todos costumavam colocar na água também o pó; uns, deixavam levantar fervura, outros não, todavia é fato que, para minha decepção, nessas cidades não se usavam colherinhas, nem tampouco havia caldinho doce para saborear, enquanto rolava solta a conversa dos adultos... Conversas na sala – com xícaras pequenas e bandeja – ou na cozinha, com direito a canecas maiores e pão caseiro sobre a mesa. Chaleira no fogão, coador de pano fumegando, tilintar de talheres, crianças prá lá e prá cá, sempre se intrometendo nos assuntos dos mais velhos...
Até os trinta anos de idade, fora o cheiro e o meladinho, eu não conhecia “na íntegra” o valor dessa bebida tão agasalhadora e generosa. Bastam poucos ml., para uma mudança de atitude, de pensar e até mesmo de sentir... Em 1976, fui trabalhar numa autarquia do Estado, um emprego com inúmeros desafios a enfrentar, especialmente na área dos relacionamentos humanos – colegas de trabalho, chefias, subordinados, clientes, etc., etc., etc. Os obstáculos da área técnica de algumas instituições acabam-se tornando insignificantes, frente às suas demandas, no que diz respeito aos recursos humanos, embora de modo geral a atenção de todos privilegie o primeiro setor, deixando "ao deus dará" a questão importantíssima da convivência entre os indivíduos, que de fato são a organização. Nesse sentido, posso afirmar, vivi anos amargos naquela empresa pública, a ponto de ter de contrariar minha expectativa inicial, que seria a de encerrar por lá a carreira, a partir da aposentaria. Tempos difíceis: estresses contínuos, somatizações, às vezes quase desespero. Visitas freqüentes a médicos, psicanalista, psicólogo, terapias alternativas. Ganhos materiais, em troca de perdas sociais e afetivas. Tudo isso, regado a cafezinhos! Bendigo-os, no entanto, pois muitas vezes me impediram de chegar "à beira de um ataque de nervos"... Quando me sentia confusa, constrangida, amargurada, indignada ou simplesmente cansada – a partir de situações conflitantes – a pausa para um café era sempre a mais eficaz solução de emergência para eu poder arejar o raciocínio, revigorar a mente, ou recobrar meu equilíbrio emocional. E, em termos de relações pessoais no trabalho, o gesto de convidar ou ser convidada para um cafezinho, no meio da manhã ou da tarde, sempre me foi tão estimulante quanto receber presente de amigo. Tal lembrança me faz reconhecer que também posso falar de coleguismo, de amizade e de cumplicidade, o lado bom da história, que para mim tem gosto de café!
Tudo passou, ou se foi, juntamente com o excesso de estresses e suas conseqüências... Ficamos, apenas os três: eu, minha memória repleta de verdades e o café, que nesta casa adquiriu autonomia e novo parceiro... Sem café com leite, não há café da manhã e, sem este, não haverá manhã!

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