Última Lição
Há mais de quatro anos, gravado com letras brancas - de paz - na lousa de cor verde - esperança - da minha existência, tive a grata oportunidade de conhecer este poema de Mário Quintana:
"Com o tempo, você vai percebendo que
para ser feliz com uma outra pessoa,
você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama)
e que não quer nada com você,
definitivamente, não é a pessoa da sua vida.
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e,
principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas...
é cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar não quem você estava
procurando, mas quem estava procurando por você!"
Encantei-me com a beleza dos versos, captei de pronto o recado, porém, até hoje não consegui completar a lição de casa... Continuarei tentando, na medida em que me sentir capaz de vencer o grande mal estar causado pela minha teimosia em exercer a liberdade, no meu entender, a terra mais fértil para o cultivo do desamparo e da solidão.
Até!...
Categoria: Compartilhando
Escrito por Clerzinha às 16h44
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Verdades com Aroma de Café
Todos os dias, acordo com muita vontade de tomar o meu café da manhã. Percebo que, com o passar dos anos, essa primeira refeição acabou-se transformando num momento peculiar do meu cotidiano. Se utilizasse o termo desjejum, não lhe estaria dando a conotação que merece, simplesmente pelo fato da riqueza de vida que estou sendo capaz de explorar nessa ocasião. Ela se mostra bastante propícia para eu deixar rolar a fita magnética de minha memória sensorial, esta que ainda conserva razoavelmente intactas muitas das sensações produzidas através dos órgãos do sentido desde a infância e, de modo especial, a olfativa. A quantidade de café que preparo é mínima, mas suficiente para espargir por toda a casa aquele aroma agradável e bastante provocante em relação às minhas reminiscências. Perfume! Cheiro de lar, de união, de aconchego! Cheiro de verdade, a única que me apraz continuar perseguindo: verdade amorosa, essa mesma, dourada como o fio de café fresquinho saindo do fundo do coador! Nada a ver com a verdade da razão – incolor, inodora e insípida, apesar de necessária como a água – reflexiva, mais apropriada a um modelo de vida que já nem tanto me seduz...
Durante a infância, costumava prestar atenção ao ritual das pessoas quando faziam “seus cafés”. Havia diferenças entre uns e outros. Na cidade litorânea onde nasci, não costumavam adoçar a água; esta, depois de fervida, era despejada sobre o pó, diretamente no coador. A adoçagem costumava ser individual. Lembro-me de como eu gostava de retirar, com aquelas pequeninas colheres de metal, o meladinho que acabava ficando no fundo de muitas xícaras, antes de serem lavadas – açúcar, sabor café. Na capital, o adoçamento podia ou não acontecer no momento em que se punha a água para ferver, mas os demais procedimentos eram semelhantes aos anteriormente descritos. No interior, entretanto, além do açúcar, todos costumavam colocar na água também o pó; uns, deixavam levantar fervura, outros não, todavia é fato que, para minha decepção, nessas cidades não se usavam colherinhas, nem tampouco havia caldinho doce para saborear, enquanto rolava solta a conversa dos adultos... Conversas na sala – com xícaras pequenas e bandeja – ou na cozinha, com direito a canecas maiores e pão caseiro sobre a mesa. Chaleira no fogão, coador de pano fumegando, tilintar de talheres, crianças prá lá e prá cá, sempre se intrometendo nos assuntos dos mais velhos...
Até os trinta anos de idade, fora o cheiro e o meladinho, eu não conhecia “na íntegra” o valor dessa bebida tão agasalhadora e generosa. Bastam poucos ml., para uma mudança de atitude, de pensar e até mesmo de sentir... Em 1976, fui trabalhar numa autarquia do Estado, um emprego com inúmeros desafios a enfrentar, especialmente na área dos relacionamentos humanos – colegas de trabalho, chefias, subordinados, clientes, etc., etc., etc. Os obstáculos da área técnica de algumas instituições acabam-se tornando insignificantes, frente às suas demandas, no que diz respeito aos recursos humanos, embora de modo geral a atenção de todos privilegie o primeiro setor, deixando "ao deus dará" a questão importantíssima da convivência entre os indivíduos, que de fato são a organização. Nesse sentido, posso afirmar, vivi anos amargos naquela empresa pública, a ponto de ter de contrariar minha expectativa inicial, que seria a de encerrar por lá a carreira, a partir da aposentaria. Tempos difíceis: estresses contínuos, somatizações, às vezes quase desespero. Visitas freqüentes a médicos, psicanalista, psicólogo, terapias alternativas. Ganhos materiais, em troca de perdas sociais e afetivas. Tudo isso, regado a cafezinhos! Bendigo-os, no entanto, pois muitas vezes me impediram de chegar "à beira de um ataque de nervos"... Quando me sentia confusa, constrangida, amargurada, indignada ou simplesmente cansada – a partir de situações conflitantes – a pausa para um café era sempre a mais eficaz solução de emergência para eu poder arejar o raciocínio, revigorar a mente, ou recobrar meu equilíbrio emocional. E, em termos de relações pessoais no trabalho, o gesto de convidar ou ser convidada para um cafezinho, no meio da manhã ou da tarde, sempre me foi tão estimulante quanto receber presente de amigo. Tal lembrança me faz reconhecer que também posso falar de coleguismo, de amizade e de cumplicidade, o lado bom da história, que para mim tem gosto de café!
Tudo passou, ou se foi, juntamente com o excesso de estresses e suas conseqüências... Ficamos, apenas os três: eu, minha memória repleta de verdades e o café, que nesta casa adquiriu autonomia e novo parceiro... Sem café com leite, não há café da manhã e, sem este, não haverá manhã!
Categoria: Maturidade
Escrito por Clerzinha às 09h40
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
A Borboleta e o Elefante
Há muitos anos, quando participava de oficina sobre interação fisiopsíquica, foi-me consignado escolher um animal que me representasse ou, melhor dizendo, um animal com o qual eu pudesse identificar meu mais legítimo anseio, este último, traduzido como "vontade da alma". Sem titubear, optei de pronto pela borboleta, com a justificativa de que ela me sugeria leveza, liberdade e flexibilidade. Leveza, por ser capaz de pousar com elegância, até mesmo numa delicada pétala ou folha; liberdade e flexibilidade, pelo fato de haver obtido junto à natureza licença permanente para adejar de flor em flor, através de bosques, pomares e jardins. Anseio é a vontade da alma. Anseio não é falso. A alma precisa viver o que gosta em cada coisa! Naquela oportunidade, não me lembrei de mencionar o indicador beleza - uma precaução inconsciente - motivada talvez pelo fato de saber que nem todas as borboletas podem ser consideradas belas, ao menos no que diz respeito à opinião defendida pelo senso estético comum. Descobri que sentir-se leve, livre e solto, no espaço circunscrito desta existência, é o que ensejava o “meu bicho”. Eu necessitava me permitir resgatá-lo, uma vez que não estava disposta a suportar o alto custo de sua manutenção, no esconderijo secreto de minha mente racional. Essa cobradora, algumas vezes, costuma ser cruel e avarenta, principalmente quando lhe permitimos nos fazer cobranças superiores às nossas dívidas, uma concessão arriscada, que sempre acaba nos levando ao desespero e este é, a meu ver, o maior inimigo da mente e do corpo saudáveis, pois lhes reserva culpas e somatizações.
Muito antes, porém, do fato terapêutico acima descrito, ainda na infância, tive a oportunidade de assistir a um filme cujo tema era o circo. Saí do cinema maravilhada com as proezas dos trapezistas, a alegria dos palhaços e também com o romantismo do casal herói, porém, mais do que todas essas atrações, a apresentação de um elefante generoso e inteligente marcou-me fundo, um registro importantíssimo, do qual me dei conta somente décadas depois. A partir de determinado comando, o animal deitou-se sobre uma criança, que ainda poderia ser considerada pequena, tendo permanecido na posição decúbito ventral durante menos de minuto talvez, tempo que me pareceu demasiadamente longo e perigoso, até o momento em que, a um sinal do domador, ele se foi erguendo, pata à pata, tranqüila e delicadamente, cuidando para não tocar o objeto que tinha sob seu corpo e poder. Em seguida, a menina, vestida de maiô repleto de lantejoulas coloridas, levantou-se, fez reverência e os três - homem, elefante, criança - receberam muitos aplausos, tanto da platéia circense (nada mais que os figurantes), quanto dos demais espectadores daquela matinê dominical (eu e a geração infantil dos anos 50). Cena gravada na fita magnética desta “memória de elefante”, que se gaba de ter sabido preservar as tomadas mais significativas da película essencial de sua vida, trechos que pouco a pouco se vão revelando, justamente numa fase bastante oportuna para reprises com novas falas e novos questionamentos...
-
Para ser leve, necessito ser borboleta? É lógico que não. Posso ser elefante!
-
Para ser livre, posso ser elefante? Não, para ser livre, é preciso que seja borboleta!
-
Para ser flexível, quem preciso ser? Talvez possa ser ambos, alternando e ou conjugando, de acordo com as circunstâncias...
-
De que maneira? Elefante, para as demandas da mente – olhar para fora, estar atento aos comandos externos – com a consciência de que, muitas vezes, é preciso “trocar a paisagem”, para se ter liberdade de fazer outra coisa... Borboleta, para as demandas do corpo – olhar por dentro é simplesmente sentir-se – cair na real, viver o presente, tornar-se capaz de abrir mão do sonho pensado (não do sonhado, evidentemente...). O que vem pode ser bom, mas se houver sonho, nada será bom, porque nada é sonho...
O querer vem da mente, a necessidade vem do corpo. Não posso confundir obrigação de ser, com sentimento de ser. Em caso de dúvida, contrato um tradutor intérprete, para traduzir e ou interpretar a linguagem do meu corpo...
Descubro, finalmente, que o fruto do conhecimento é sempre o mais saboroso e precisa ser partilhado! É por esse motivo que estou aqui.
Categoria: Compartilhando
Escrito por Clerzinha às 13h32
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Diálogo Em 3D
Compadre:
"Muito se tem falado sobre as delícias da terceira idade, mas eu nunca vi nenhuma delas e creio que jamais verei.
Fui passar o Natal e festas do fim do ano na Bahia, com a minha família.Passei todos aqueles dias festivos na frente da telinha, bebendo coca-cola e cantando jungle bells, na companhia dos meus netos e seus amiguinhos, igualmente ranhentos. No dia primeiro do ano, amanheci na praia, fiquei entre duas pocinhas, desmaiei. Levaram-me para casa.
- Compadre: serão estas as delícias da terceira idade?"
(a) Jorge Amado - (conforme publicação sem data).
- É verdade, compadre! Eu também, na terceira idade, nunca vi essa tal delícia e penso que jamais verei.
Finalmente, estou morando em uma clínica de repouso para idosos iguais a mim. Não tenho com quem conversar. Assino dois jornais: O Estadão de São Paulo e o J.C. de Jundiaí, mas leio sozinha. Todos têm o seu problema de vista ou outra qualquer coisa para despistar. Não gostam de ler ou escrever, afinal, não gostam de nada. Mostrei uma crônica a uma senhora. Ela perguntou: -Qual é a música? Ainda não pensei na composição, mas deverá ser um samba bem brasileiro.
Será melhor para nós, da terceira idade, esperarmos pela volta ao planeta, conforme os livros espíritas:
"Voltaremos como o pássaro
Quando o solo se transformar em jardim
E falaremos de amores e outras vidas,
Que jamais terão fim.
Voltaremos, como brisa acariciante,
Outra vez a existir
E nossa alma em outras almas misteriosas
Voltaremos a sentir
E, se voltar é a lei dos caminhos,
Nosso morrer, ao viver, alegria voltará
Entre névoas luminosas
Poderemos sorrir!"
a) Nísia M. Duarte - (22.10.97).
Caros velhos:
Mais de dez anos se passaram, que lhes posso dizer? Justamente eu, uma caloura da terceira idade e já portadora de tanta desesperança...
Sei de suas vidas, algo a mais do que os dois juntos puderam saber sobre as mesmas, pois me foi dado o privilégio de lhes testemunhar o final, mas, em contrapartida, estou tendo de conviver com a dúvida sobre o meu próprio fim que, espero, não seja menos digno do que o de vocês...
Sinto-me desapontada, enquanto sexagenária. Não vislumbro qualquer expectativa em relação ao desenrolar do espetáculo da vida, que acontece no palco do teatro da modernidade, ao qual sou obrigada a assistir, mesmo tendo consciência de que seu enredo caminha na contramão de todas as minhas crenças e ideais.
Chego a pensar que vocês dois, meus queridos - unicamente pelo fato de terem enfrentado um diferente tipo de realidade social, que só aconteceu para a velhice do século XX - ainda se podem considerar anciãos privilegiados, pois nenhuma de suas queixas me pareceu desesperadora, principalmente a sua, compadre, um homem que foi e continuará sendo eternamente reverenciado também pela juventude.
No meu entender, hoje, todos sofremos: nós, os velhos, de desrespeito físico e social; as crianças, de desamparo afetivo e moral, enquanto os jovens e adultos, considerados a porção produtiva da sociedade, se deixam devorar pelo consumo e pela ilusão da imagem, ou do poder. Acredito, então, que as "delícias da terceira idade" sejam não mais que ilusões e destas, feliz ou infelizmente, eu já comecei a me livrar...
a) Clerzinha - (Julho de 2008)
Categoria: Envelhecer
Escrito por Clerzinha às 17h40
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Breves e Leves Reflexões...
Parte III - Tributo
Há duas semanas, venho-me sentindo engessada, sem ânimo para escrever sobre qualquer assunto, menos ainda sobre velhice, talvez pelo fato de me perceber, de repente, como uma “velha mental”, deslocada neste mundo de ambiente configurado para e pela juventude. Esta, sempre acaba contando com o apoio maciço dos próprios velhos e envelhecentes, fugitivos em relação à sua realidade, em detrimento da busca de novos comportamentos, que poderiam exterminar de vez com todos os preconceitos contra o envelhecimento. Até no Novo Dicionário da Língua Portuguesa, pelo menos um dos significados da palavra envelhecer tem conotação pejorativa – “tornar-se desusado ou inútil” – constatação que me frustra sobremaneira e que me sugere resignação, como única saída digna para suportar o vazio da desesperança, em relação ao surgimento de algumas transformações culturais, que poderiam trazer benefícios a nossa sociedade, ainda "por demais" imatura.
Todos nós, desde crianças, coletiva ou individualmente, costumamos cultuar ídolos, no entanto, nem preciso dizer, a primazia dos mais jovens, mais belos, mais corajosos, mais “inteligentes”, ou poderosos, é gritante nos quatro cantos do mundo, sem mencionar a questão das celebridades, uma verdadeira empresa que cria e produz ídolos em série – top de linha – na velocidade e veleidade dos tempos modernos. Garanto que não fui criança de muitos ídolos ou heróis. Posso considerar que tenha sido eclética, no que se refere aos modelos que escolhi durante a infância e juventude, tanto para amar, como para imitar. Parti de Santa Maria Goretti, ou Santa Filomena – ambas originárias da Itália e do catecismo – passei por Sandra Dee – nas telas das matinês de domingo – e cheguei à Marilyn Monroe – antes do suicídio, é lógico – dos filmes doces e quentes de Hollywood... Na verdade, acredito piamente, fui mesmo fã apenas da inocência e da sensualidade. As duas, coadjuvadas pela beleza, se alternavam, de acordo com a fase de vida e as motivações que me eram apresentadas.
No estágio atual de minha existência, posso garantir que não possuo referências humanas de comportamento feminino, seja para admirar, menos ainda, para imitar. Meu nível de exigência aumentou, na medida em que o de ilusão decaiu... Todas as senhoras que conheço – no espaço público, ou no privado – têm lá, como eu mesma, suas “qualidades”, qualificações e habilidades, porém, como seria de se esperar, também possuem "seus defeitos”, desqualificações e inabilidades. Enfim, nada daquilo que fazem ou deixam de fazer poderá liberá-las da passagem através de meu crivo, seja como censura social ou avaliação existencial... Assim sendo, posso afirmar: pelo menos no que diz respeito às minhas fantasias mundanas, estou conseguindo viver mais confortavelmente em um mundo desabitado de ídolos ou ícones, razão pela qual venho-me sentindo um tanto quanto leve, vez que consegui me livrar da sobrecarga das burlas, bem como dos inúteis deslumbramentos.
Velhice é a minha realidade, meu presente e a única razão de eu ainda estar viva. É muito lógico e bastante legítimo em qualquer ser humano o desejo de viver, porém, me parece que a maioria das pessoas apresenta grande dificuldade para estabelecer ligação entre longevidade e envelhecimento, preferindo amalgamar longa vida com eterna juventude, daí as idéias equivocadas relacionadas aos velhos. Lamento tais idéias, principalmente quando as vejo sustentadas por todas as velhices – a dos profissionais e a dos velhos propriamente ditos – pois me parece que sejam elas o principal obstáculo ao surgimento de um novo paradigma, mais coerente e sensato, para orientação de todas as pessoas e, principalmente, das mais “ousadas”, que, em futuro poróximo ou distante, irão recusar-se a partir antes da hora...
Afirmei que não tenho ídolos, nem modelos para viver este, que é considerado o último período de vida, no entanto, possuo um motivo, tão legítimo quanto real, para desbancar pelo menos uma das versões cruéis do nosso dicionário, em relação ao verbo envelhecer - a de desuso, inutilidade. Apoiando-me na reflexão de uma nonagenária, que viveu por mais de quatro anos, solitária em uma Clínica Geriátrica do interior do estado de São Paulo, espero estar contribuindo para a revisão desse (pre)conceito sobre velhice, tão arraigado em nossa cultura:
Será a velhice um cemitério de vivos?
Não creio.
Uma velhice sadia tem os mesmos gostos da juventude (com raras exceções, é lógico).
Gosta de festas, música, bons livros, poesia, Tv, etc., etc.
A lembrança do passado continua viva, linda,
Como se estivesse revivendo aqueles momentos felizes,
Até em sonhos, dançando uma valsa!
Serão esses espíritos protegidos por Deus?
Creio que sim.
Deus amou e continua amando as coisas puras e belas,
Tanto que, para chegarmos a Ele, precisamos ser purificados.
Um absurdo, na maioria dos idosos, esse descaso pelas coisas belas da vida!
Estamos velhos, é verdade, um tanto desiludidos pelos reveses da vida,
Enrugados, trôpegos, porém... vivos!
O coração batendo no peito, com o mesmo ritmo da juventude.
Aproveitemos o pouco que nos resta, amemos com intensidade as coisas belas da vida,
Deixemos à juventude, como espelho, a nossa coragem, alegria e otimismo de idosos!
Nísia Miranda Duarte - (1902 - 1998)
Obrigada, tia querida, por ter sido a mais nova escritora velha que conheci! Sinto-me honrada por ser sua sobrinha e por havermos compartilhado seus primeiros anos de carreira como escritora - os derradeiros de sua longa existência!... Uma vida que poucos conheceram, porém muitos ainda poderão admirar.
Escrito por Clerzinha às 16h35
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Massarocas
Neste relato, a criança de ontem e a velha de hoje são a mesma pessoa. Mais de meio século separam os hábitos de uma e de outra para a satisfação da mesma necessidade – a da sensação básica de tato – atualmente tida como estímulo vital para a sobrevivência, a exemplo de outras tantas, como as necessidades de oxigênio, de líquido, de comida, de descanso, de eliminação vesical, intestinal, etc. Imprescindível, desde o nascimento – para garantir confiança a um organismo que almeja desenvolver-se – até a velhice – na validação de uma longa sobrevida – o tato, classificado como “sentido de proximidade”, possui parcela significativa de responsabilidade sobre o comportamento, uma vez que também é considerado linguagem, pois comunica afetos e envolvimentos fundamentais aos relacionamentos humanos. Tocar é um verbo que precisa ser conjugado na voz passiva, do nascimento à morte – ser tocado – para justificar a nossa verdadeira missão de viver e sentir a vida, esse é o postulado que entra em confronto com todas as minhas decepções frente à impessoalidade do mundo moderno.
Disse-me minha mãe que fui amamentada até bem crescidinha e que, pelo fato de havermos residido numa cidade quente do litoral, durante os meus primeiros cinco anos de vida, ela chegava a me dar quatro banhos diariamente. Tenho absoluta certeza de que jamais refletiu sobre a importância da estimulação tátil na infância, mas preciso admitir que acertou na mosca – como se costuma dizer – quando, motivada pelos preceitos da boa higiene, usou seu toque maternal numa proporção maior do que a das simples e esporádicas carícias que uma dona de casa poderia oferecer a seus filhos naquela época... E, quando minhas necessidades de toque não mais estavam sendo devidamente satisfeitas, consegui encontrar num chumaço de algodão branco, macio e renovável, que chamava de massaroca, a solução ideal para supri-las. Com aquele “objeto intermediário”, tão inusitado quanto descartável, costumava me acariciar e também as pessoas mais próximas. Sempre exigia a renovação diária do algodão, para preservar-lhe a leveza e maciez, com a delicadeza de carinho direcionado à textura de uma pele infantil. É provável que tais afagos, praticados geralmente antes do adormecer e logo após o despertar diário, me tenham auxiliado na prontidão de um sistema sensorial permanente, assim como a oferta de um passaporte adequado para que eu pudesse adentrar com alguma desenvoltura no mundo das sensações, especialmente as eróticas, em minha fase reprodutiva de vida... Sinto-me agraciada com esse legado saudável de minha infância, que vem compensando outros tantos, nem tão saudáveis assim...
As imagens que colecionei, repletas de sentido háptico - (o tato em nível mental) - vêm-me possibilitando ressignificar a velhice em termos de pele, atitude que supera qualquer possível desalento em relação à carência dos “toques de amor”. As massarocas de ontem, finalmente, transformaram-se em chumaços de graça e ternura – meus netos, especialmente nesta fase, as netinhas, que são ainda pouco mais que nenês – com a vantagem de que são massarocas que se expressam e, mais ainda, através da linguagem não verbal, repleta de mensagens táteis, as quais estão sempre à altura de minhas necessidades de consumo afetivo. Não sei se, em algum ponto obscuro dos dias futuros que me esperam, chegarei ao nível de solidão de Donna Swanson, autora que apresentei na publicação anterior. Quando li pela primeira vez seu poema – muito antes de haver atingido a velhice – tive crise convulsiva de choro, porém não consegui atinar o verdadeiro motivo daquela reação exagerada. Talvez ele esteja bem guardado nas dobras do meu inconsciente, algumas das quais faço nenhum esforço para explorar...
Quando tinha dezoito anos, lembro-me bem, foi por ocasião de uma viagem do interior para a capital, vi um casal de idosos – praticamente anciãos, de acordo com os padrões daquela época – estavam de mãos dadas e sentados na poltrona à minha frente. Durante todo o trajeto, não tirei os olhos daqueles dois, sentia-me quase hipnotizada com as singelas cenas de carinho, no meu entender, as mais românticas que havia presenciado até então. O ônibus chegou ao seu destino e os velhinhos permaneceram de braços entrelaçados por mais alguns minutos; não tinham pressa de sair de seus assentos... Tive ímpeto de abordá-los, para beijar aquelas quatro mãos abençoadas, que ainda eram capazes de transmitir amor. Não o fiz, porém, temendo ser mal interpretada. Contive-me e me restringi a fotografar na memória a bela cena, que conservo nítida até hoje. Quiçá ela ainda possa transformar-se em esperança a ser registrada junto a todas as imagens finais do meu álbum de fotos.
Esperança! Para mim, sinônimo de futuro, como já tive oportunidade de declarar por aqui. Só me resta aguardá-la e me deixar acariciar...
Escrito por Clerzinha às 12h11
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Breves e Leves Reflexões...
Parte II - O Toque
O poema de Donna Swanson, abaixo transcrito, foi considerado a expressão mais eloqüente da necessidade do "toque do amor" na velhice. ( Fiz questão de colocar original e tradução - de acordo com a referência bibliográfica assinalada - como uma homenagem aos leitores que residem acima da linha do Equador e que muito me honram com suas presenças neste blog).
Comovam-se, mas não deixem de refletir:
Minnie Remembers
"God,
My hands are old.
I’ve never said that out loud before
But they are.
I was so proud of them once.
They were soft
Like the velvet smoothness of a firm, ripe peach.
Now the softness is more like worn-out sheets or withered leaves.
When did these slender, graceful hands become gnarled, shrunken claws?
When, God?
They lie here in my lap,
naked reminders of this worn-out
body that has served me too well!
How long has it been since someone touched me
Twenty years?
Twenty years I’ve been a window.
Respected.
Smiled at.
But never touched.
Never held so close that loneliness
Was blotted out.
I remember how my mother used to hold me,
God.
When Y was hurt in spirit or flesh,
she would gather me close,
stroke my silky hair
and caress my back with her warm hands.
O God, I’m so lonely!
I remember the first boy who ever kissed me.
We were both so new at that!
The taste of young lips and popcorn,
the feeling inside of mysteries to come.
I remember Hank and the babies.
How else can I remember them but together?
Out of the fumbling, awkward attempts of new overs came the babies.
And as they grew, so did our love.
And, God, Hank didn’t seem to mind
if my body thickened and faded a little.
He still loved it. And touched it.
And we didn’t mind if were no longer beautiful.
And the children hugged me a lot.
O God, I’m lonely!
God, why didn’t we raise the kids to be silly
nd affectionate as well as dignified and proper?
You see, they do their duty.
They drive up in their fine cars;
they come to my room to pay their respects.
They chatter brightly, and reminisce.
But they don’t touch me.
They call me "Mom or Mother’ or "Grandma’.
Never Minnie,
My mother called me Minnie.
So did my friends,
Hank called me Minnie, too,
But the’re gone.
And so is Minnie.
Only Grandma is here,
And God! She’s lonely"
(Donna Swanson)
Extraído de Images, Women in Transition, compilado por Janice Grana, Winona, Minnesota, St. Mary’s College Press, 1977:
Deus,
Minhas mãos estão velhas.
Nunca disse isso antes em voz alta
Mas estão.
Antes eu sentia tanto orgulho delas.
Eram macias
Como a maciez aveludada de um pêssego firme e maduro.
Sua maciez agora é mais como a dos lençóis velhos
Ou das folhas murchas.
Quando foi que mãos esguias e graciosas como aquelas
Tornaram-se estas garras encolhidas e recurvadas?
Quando, Deus?
Aqui pousam elas em meu colo,
Lembranças cruas deste desgastado corpo que me serviu tão bem!
Quanto tempo faz desde a última vez em que alguém me tocou?
Vinte anos?
Há vinte anos sou viúva.
Respeitada.
Objeto de sorrisos.
Nunca porém tocada.
Nunca trazida para tão perto que a solidão se dissipasse.
Lembro do modo como minha mãe costumava me segurar,
Deus.
Quando estava com minha carne ou meu espírito doendo,
Ela me puxava para muito perto de si,
Alisava meu cabelo sedoso,
E acariciava-me nas costas, com o calor de suas mãos.
Oh, Deus, estou tão só!
Lembro-me do primeiro rapaz que me beijou.
Éramos os dois tão inexperientes!
Sabor de lábios juvenis e pipoca,
Sensação íntima de mistérios por virem.
Lembro-me de Hank e dos bebês.
De que outro jeito posso lembrar-me deles senão juntos?
Das desajeitadas e ávidas tentativas de
Amantes novos brotaram os bebês.
E conforme cresciam, crescia nosso amor.
E, Deus, Hank parecia não se importar
Que meu corpo tivesse perdido um pouco de seu brilho e elasticidade.
Ele ainda o amava.
E o tocava.
E não nos importávamos por não estarmos mais tão lindos.
E as crianças abraçavam-me tanto.
Oh, Deus, estou sozinha.
Deus, por que não criamos as crianças para serem tolas
E afetuosas assim como dignas e adequadas?
Sabe, elas fazem o que devem.
Dirigem seus belos carros,
Vêm até meu quarto em sinal de respeito.
Sua conversa é animada, recordam-se
Mas não me tocam.
Chamam-me "Mamãe", "Mãe" ou "Vovó"
Minnie, jamais.
Minha mãe chamava-me Minnie.
Meus amigos também.
Hank me chamava também de Minnie.
Estes porém já se foram.
Como Minnie, que se foi.
Só Vovó restou,
Deus!
E como ela está só!
Montagu, Ashley (1905), Tocar: O Significado Humano da Pele/ Summus (SP), 1988.
Escrito por Clerzinha às 21h01
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Sem Tempo
O presente que se ignora, vale o futuro - é o que afirma Machado de Assis, em um de seus mais famosos contos - A Cartomante.
O descaso em relação ao presente, a meu ver, poderá ter implicações gravíssimas, em termos de qualidade de vida (e, por que não, de morte?), no futuro de qualquer indivíduo que se mantenha saudável até a última fase do ciclo vital, ou seja, a velhice.
Como a maioria das pessoas que conheço, principalmente as pertencentes à minha faixa etária, fui condicionada, desde criança, a nunca deixar de “agir corretamente” e a buscar perfeição, em termos comportamentais, no sentido de atender às exigências desta nossa sociedade. Aprendi, desde cedo, que deveria agradar a todos - sendo, principalmente, obediente, cordata e uma porção de outros adjetivos, sempre cuidadosamente colocados no feminino - e que a maior satisfação que eu poderia almejar seria a de constatar a aceitação dos outros em relação ao meu proceder. Em meio a tantos aprendizados, fui adquirindo capacidade invejável, não apenas para abrir mão da maioria de minhas demandas individuais e internas, mas também para postergar prazeres simples, como por exemplo, aqueles relacionados à experimentação e vivência do Aqui e Agora. Imaginei que minhas pequenas renúncias do dia-a-dia se somariam tal qual cifras em uma caderneta de poupança e que, ao final, a recompensa viria, em forma de polpudo saldo credor, para ser consumido sem culpa, a meu bel prazer, a partir de um dia qualquer do futuro... Os dados da minha contabilidade existencial apontam um irrecuperável desfalque na coleção de bons momentos, mas ainda assim, na coluna dos lucros, o percentual atribuído às minhas pequenas transgressões foi maior, em termos de “grandes” prazeres -os da infância, os da juventude e até mesmo os da vida adulta - e, por conta desse resultado parcial, os números do balanço geral ainda não estão no vermelho... Tal constatação, somada ao fato de eu estar tendo tempo suficiente para desaprender e me desvencilhar do que não foi e jamais será bom para mim, me confere um sentimento de gratidão pela vida - o mesmo que o autor deste poema, provavelmente, não deve ter sido capaz de conhecer, até o momento em que resolveu brindar-nos com esta triste e bela confissão:
Se eu pudesse viver novamente minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais,
seria mais tolo ainda do que tenho sido.
Na verdade, acho que bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres, subiria mais
montanhas e nadaria mais em rios.
Iria a mais lugares, lugares que nunca fui,
tomaria mais sorvete e comeria menos
lentilha, teria mais problemas reais e menos
problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e
produtivamente cada minuto da sua vida.
Claro que tive momentos de alegria.
Mas, se eu pudesse voltar a viver, trataria de ter
somente bons momentos.
Porque, se vocês não sabem, disso é feita a vida, só de
pequenos momentos. Não percas por favor o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma
sem um termômetro, uma bolsa de água quente,
um guarda-chuva e um pára-quedas.
Se eu voltasse a viver, eu viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar
descalço no começo da primavera e continuaria
assim, até ao final do outono.
Eu daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais
amanheceres e brincaria com mais crianças, se eu
tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, eu tenho 85 anos e eu sei que estou morrendo...
(Jorge Luiz Borges)
Pelo fato de haver confiado demasiadamente no futuro, delegando-lhe todas as recompensas por seu bom desempenho no passado - formado em grande parte de presentes perdidos - o poeta precisou apoiar-se na ilusão do SE, onde uma outra vida teria a incumbência de acontecer para ratificar a validade de sua existência. Louvável poema, para uma lamentável realidade!
Escrito por Clerzinha às 20h17
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Breves e Leves Reflexões Sobre a Velhice
Parte I - O Tempo
Uma causa evidente desta vida solitária que levo, reside na total falta de interesse pelas atividades colocadas à minha disposição - através dos chamados Centros de Convivência Para a Terceira Idade e de alguns projetos propostos por outras instâncias da sociedade local - pelo fato de não conseguir vislumbrar oportunidades concretas de vivenciar, em qualquer posição que me coloque, uma Velhice Bem Sucedida. Não entrarei em detalhes sobre a qualidade das propostas dessas instituições - em termos de manutenção da saúde mental, atualização de conhecimentos, educação continuada, desenvolvimento de novas e antigas habilidades - para incentivar e facilitar ao idoso uma participação social ativa, pelo fato de que, aqui e agora, tenho de me contentar em ser simplesmente público alvo... A mudança repentina de fase de ciclo vital - da adultez para a senescência (como querem alguns autores) - bem como a de status profissional - da vida profissional ativa para a aposentadoria (quase compulsória...) - não me servem de justificativa para aderir a qualquer tipo de passividade existencial ou intelectual, um comportamento comum, que costumo detectar na maioria de meus companheiros de faixa etária, e que, para ser franca, muito me incomoda. Na mesma proporção, também observo, estampado em alguns semblantes - independentemente da quantidade de rugas - um sentimento de descaso para com a maturidade, que acabou caindo na malha fina das redes do senso comum, transformando-se em sua principal vítima. Pelo fato de ser alvo de uma diversidade de expectativas - por exemplo, as relacionadas ao mercado, compra e venda de produtos anti-envelhecimento - e de concepções - só para lembrar o jargão: "a idade do condor" - o preconceito em relação ao binômio velho/envelhecer, a cada dia, fica mais e mais reforçado. Homens e mulheres, sem relevância de nível sociocultural e de ocupação, apresentam crenças e posturas negativas frente à velhice; trata-se de uma verdadeira fobia generalizada. Lamento duplamente: como sexagenária que sou e profissional da área da Gerontologia que fui.
Para amenizar um pouco a frustração pela qual me vejo invadida em momentos como este - onde tais verdades ficam consignadas até mesmo na tela do computador - dou-me o direito de declarar publicamente, através desta mesma tela e em letras garrafais - que simbolizam o meu grito digital - o seguinte :
Sou vlha por convicção; estou sozinha por força das circunstâncias e vivo solitária por opção!
As duas últimas situações, a qualquer momento, poderão ser alteradas, ao embalo da vida, no entanto, faço votos de que a primeira - em razão desse mesmo embalo - jamais chegue a sofrer mudança semântica significativa, pois sinto que, de verdade, engatei na velhice! Posso resgatar com serenidade tudo de bom que amealhei durante décadas, cuidando para que nada escoe como água por entre os dedos, e com a certeza de que saberei viver com leveza o porvir.
Admito, sim, que um velho possa deixar de ser velho - provavelmente quando decidir fixar residência no País das Ilusões, um lugar que conheço de sobejo e ao qual pretendo jamais retornar - e que, de maneira inusitada, também seja capaz de retornar à obscuridade do infantilismo - como, por exemplo, através da degeneração, especialmente a mental - todavia, faço questão de sublinhar: o incapaz não é velho, é apenas incapaz; o velho o será, única e exclusivamente por conta do destino, vez que pode fazer a opção de ser apenas velho...
Estudos de cá, preconceitos de lá, ilusões acolá... Fato concreto é que o Tempo continua sendo, indiscutivelmente, o maior patrimônio da velhice. A sabedoria, mesmo bem avaliada, jamais lhe tomará a primeira posição! Uma pena, pois é nela que costumo investir, ainda que sem fanatismo...
Outro dia, andando pela calçada desenhada da praia, resolvi brincar com o Tempo, só para com ele trocar de lugar e me sentir mais sua amiga, criando intimidade... Resgatando um pouco do compasso ligeiro da juventude e me deixando levar pelo ritmo da maturidade, declamei:
Bom
para o tempo, é o espaço
para o espaço, é dar tempo
para dar, é ter tempo
para ter, é sem tempo,
com espaço e no tempo
para, com tempo,
ter espaço e tempo!
Ele simplesmente me respondeu, naquele seu tom severo, que todos bem conhecem:
- Não adianta me enrolar!...
Escrito por Clerzinha às 09h17
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Sopa de Pedras
Conta a lenda que:
uma mulher pobre e desprevenida teve de se mudar para região que pouco conhecia onde, de repente, se viu isolada, sem recursos materiais e com fome. A noite se aproximava, o frio aumentava e o estômago doía. Aflita, mas sem se perder em meio à desolação de sua realidade, sentou-se na soleira da porta de casa e pôs-se a explorar o ambiente à sua volta, ao mesmo tempo em que mentalmente fazia rápido inventário de todos os seus pertences. Num primeiro momento, constatou: possuía ótimo fogão - provido de lenha suficiente para dois ou três dias de uso - uma grande panela, água à vontade; no quintal havia pedras, muitas pedras, de diversos formatos e tamanhos. Além de tudo isso, avistou fumaça saindo das chaminés de algumas habitações muito próximas à sua. Desse modo, conseguiu perceber que tinha companhia por perto, poderia não estar tão só o quanto supunha... Da pausa, à percepção; desta, à certeza; depois, à coragem e, a partir daí, à criação, seguida da ação: minutos após, estava a mulher batendo nas portas das residências de seus vizinhos, apresentando-se como nova moradora da aldeia e oferecendo a todos os seus préstimos. Colocava-se como boa dona de casa, cozinheira muito versátil, capaz até mesmo de fazer deliciosas sopas de pedras!
- Que lugar abençoado, dizia, vamos poder saborear juntos muita sopa de pedra, minha especialidade, pois a matéria prima temos e com fartura...
Os vizinhos, mais curiosos que generosos, lhe deram a atenção que esperava e, assim, os diálogos foram-se aquecendo, a ponto dela se ver, em poucos quartos de hora, recebendo tantas sugestões, quanto mais pertences para a confecção daquele prato inédito, que todos ansiavam por experimentar. De volta à casa, a mulher separou cuidadosamente, uma a uma, as oferendas para a sua primeira e inédita sopa... Àquela altura, a novidade culinária já podia contar com cenouras e vagens fresquinhas, batatas tenras, folhagens diversas, alguns temperos de cheiro e até, vejam só, um suculento naco de toucinho!
A noite chegou devagar, embalada pelo ritmo das pedras batendo no fundo da panela, que assentada sobre o fogo, abrigava o turbilhão líquido e colorido da mistura densa e saborosa, cujo aroma se espalhou pela cozinha, quintal, até a vizinhança. Mais tarde, sentindo-se aquecida, saciada, alimentada e muito satisfeita em razão das novas amizades que conquistara, finalmente, a mulher pôde dormir em paz...
Cada leitor dá à história um valor, um peso, uma interpretação. E as interpretações serão tantas quantas forem as leituras, a ponto de se poder dizer: A cada pessoa, uma sopa de pedra... ou, quem sabe: Cada um tem a sopa de pedra que merece...
Importante é se possuir consciência, tanto da impossibilidade de receita, como da exigência do ingrediente indispensável desse prato altamente nutritivo, ou seja, a pedra, no singular ou plural, pois ela lhe dá identidade...
Ultimamente, muito me tenho alimentado de sopa de pedras, também pela abundância de matéria prima à minha disposição... A variedade, bem como as diversas combinações, que não me permitem cair na mesmice do cardápio, acontecem em função da capacidade criativa e da valorização que costumo atribuir aos relacionamentos construídos, não apenas no meu cotidiano, mas também os que aconteceram durante o transcorrer de toda a minha vida até aqui. Por ora, sinto-me capaz de saciar-me, alimentar-me e, ao mesmo tempo, gratificar-me com o ato contínuo de produzir e poder dividir com os “vizinhos” mais próximos minhas sopas de pedra de cada dia.
Escrito por Clerzinha às 14h27
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Provérbio Chinês
Confesso que, até há alguns minutos atrás, estava sem assunto, como se costuma dizer, para iniciar minha conversa semanal. Faltava-me o mínimo de motivação interna, no sentido de desejar comentar qualquer acontecimento externo – por exemplo, a comemoração do Dia das Mães – ou interno – meus sentimentos de mãe e de filha – pois o excesso de conotação comercial que a cada dia, mais e mais, a data vem merecendo, chega de fato a me irritar e, o que é pior, interfere nos meus interesse e prazer de estar fomentando novas demandas de auto-conhecimento, para dividi-las ou trocá-las com quem estiver interessado. Acontece que, ao tentar recolocar no armário minha agenda de 2007, que estava fora de lugar, e tendo de ajeitar alguns papéis avulsos, juntados à sua primeira página, deparo-me com a seguinte anotação:
“Me ame quando eu menos merecer, pois é quando eu mais vou precisar”
(Provérbio Chinês)
Lembro-me ainda do impacto que a frase exerceu sobre mim, num primeiro momento, quando com ela tive contato, em tempo e lugar que ora não consigo precisar. Tenho a impressão de que funcionou como uma espécie de apelo emocional da minha voz interna – a que sempre trabalha a meu favor – no sentido de encontrar solução proveitosa para alguns conflitos de ordem afetiva, com os quais tive de me deparar em determinada época. Relutava em assumir a total responsabilidade sobre os meus sentimentos – positivos, ou negativos –, independentemente deles terem sido provocados (por outrem) ou invocados a partir da minha própria imaturidade, duas realidades muito diversas, que eu insistia em ignorar: se amava, era porque o outro merecia; se carregava mágoa, era porque o outro me magoara; se chorava, era porque algo ou alguém me havia feito chorar; se ria, era porque “a coisa” era engraçada e, assim por diante... uma sucessão de equívocos – onde o meu Eu sempre se encontrava “do lado de fora” - que me privou, durante mais anos que o presumido, da maravilhosa sensação de me poder sentir Eu mesma, Em mim, Para e Por mim.
Fato é que o provérbio chinês conseguiu abalar de certa forma minha estrutura afetiva de mãe e, por conta disso, estou-me dando a oportunidade de comentá-lo sem, no entanto, necessitar do manto de santa - com o qual os cristãos costumam vestir suas mães - ou ter de calçar os sapatinhos apertados das mulheres chinesas, com a intenção de me propor o estabelecimento de uma relação sensata entre a fala oriental - por mim interpretada como um grande apelo - e o amor materno, esse, tão exaustivamente glorificado, em quase todos os cantos do mundo, especialmente nesta data.
Não tenho conhecimento de mãe que, em algum momento de sua vida – antes, logo após, ou muito tempo depois do nascimento de seu filho – não se tenha deixado trair pelo Amor Condicional, ou seja, aquele sentimento tido e visto como puro, que ora sugere, ora solicita, e mesmo, nas situações periclitantes, acaba exigindo do filho algo a mais do que ele próprio é capaz de se dar ou, pior ainda, de lhe dar, como prova de gratidão, apenas pelo fato de havê-lo trazido a este mundo. No meu entender, esse é o amor que nos chega embrulhado p'rá presente e permanece o tempo todo atado à palavra merecimento, como se amor de verdade acontecesse unica e tão somente “por causa de”...
Plagiando sem qualquer escrúpulo o pensamento chinês e sem me preocupar com sua significação original, transporto-o até a minha realidade – que não deve estar distante das realidades das demais mulheres destes tempos modernos – na qual o Amor Incondicional, a mais verdadeira modalidade desse sentimento, vem encontrando sérias dificuldades para continuar sobrevivendo... Poucas pessoas se dão conta de que amar incondicionalmente significa amar “apesar de”...
Portanto, como lembrança de mais um Dia das Mães, aqui deixo gravada minha sugestão:
Mulher, ama com Amor Incondicional, aquele ou aquela que necessita chamar-te de Mãe!
Escrito por Clerzinha às 08h09
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Bolinhos de Chuva
Dia chuvoso! Desde cedinho, de tempos em tempos, vou ao terraço, olhar para o céu, na esperança de constatar alguns minutos de estiagem, a fim de que eu possa sair desta toca e, finalmente, levar a cabo minha principal atividade diária, a caminhada, da qual já me tornei dependente, tanto física, como psiquicamente. Aos poucos, vou percebendo: hoje, o dia não me favorecerá.
Qualquer tipo de dependência, no meu caso, me parece prejudicial, desde a mais comum, no âmbito da afetividade, como por exemplo, a dependência da companhia de gente querida, até a considerada mais positiva, no que se refere à manutenção da qualidade de vida, ou seja, a dependência de exercícios ou atividades físicas. Incomoda-me o fato de não me sentir totalmente livre, porém, de imediato, reconheço que liberdade total não existe e, para remediar tal incômodo, imagino que posso circunscrevê-la numa área onde eu me perceba inteiramente à vontade... - Qual seria então, dentro de mim, essa área?
Imediatamente, vem-me à mente a palavra memória. - Ah, eis uma parte minha, que de fato jamais me decepcionou! Tem também a vantagem de poder ser acessada a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer espaço ou situação em que me encontre e com a garantia de que ela não padece de um mal muito comum, neste início de século, apresentado por grande parte das pessoas próximas à minha faixa etária: o esquecimento. No presente, de minha pródiga memória venho dependendo, nem tanto para me distrair, menos ainda, para matar o tempo e, sim, imbuída sinceramente da intenção de me deleitar com o prazer das lembranças, que sempre me acodem no momento certo.
Chove lá fora, estou sozinha dentro de casa, espero ninguém, pois no meu dia-a-dia, somente eu existo. Hoje, o telefone, que já tocou uma vez, não irá mais tocar, bem o sei, nem por isso me entristeço, não o quanto eu mesma poderia supor que me entristeceria por estar só, há décadas atrás... Para compensar a falta de gente à minha volta, conto com dezenas de nítidas, coloridas e luminosas imagens, que fazem parte de minhas recordações. Lembro-me de pessoas com as quais partilhei minha vida, numa época em que eu ainda não me havia capacitado a prescindir de companhia. E houve sóis, ventos, noites e dias; e houve também muitas chuvas, porém muito diferentes desta de agora, porque eram chuvas regadas a bolinho de chuva!
E pensar que nenhuma importância eu costumava dar àqueles bolinhos! Geralmente, experimentava um ou dois apenas, com açúcar e canela, que lhe davam sabor especial. Não os valorizava, pois não apreciava doces, ao contrário de hoje, que tanto os desejo, sendo que deles tenho de me afastar... Também detestava os dias chuvosos e não sabia ficar sozinha. Acredito mesmo que gostava de quase nada, mais pelo fato de pouco conhecer, do que por muito desdenhar. Na realidade, do ponto de vista material, tinha o mínimo, porém, tudo possuía, numa ambigüidade fácil de se entender... Atualmente, deliciando-me apenas com a existência de muitas coisas - e sem ousar dizer, em sã consciência, que nada tenho - posso garantir que tão somente Me tenho, de corpo e alma, sem açúcar, mas com afeto. O afeto é para mim o doce mel da alma. Provavelmente, aprendi a valorizá-lo, também nos momentos em que assistia o ritual de minha mãe, em frente ao fogão, fritando seus bolinhos de chuva e emprestando à tarefa todo carinho, pois era com seus petiscos que costumava sustentar e garantir a amizade das pessoas que gostava, principalmente em dias como este, quando as saídas ficavam tão inviáveis quanto a minha referida caminhada, um contratempo que me levou de volta ao passado, meu fiel companheiro deste início de velhice.
Ao redigir este texto, imaginei que iria concluí-lo antes da chuva passar. Quem passou depressa foi o tempo, que me obrigou a deixar descansando a mente e as palavras, por aproximadamente doze horas... Entre refeição, televisão e o acordar, após uma noite de sono, retomo às minhas memórias, que aos poucos vão-se tornando mais e mais obnubiladas, devido a presença da claridade, anunciando a chegada de um novo dia. Ele penetra através da vidraça e me confidencia que, logo, logo, o sol estará por aqui... - Que dia é hoje?
A consciência do presente, aliada à cronicidade dos afetos maturados dentro de mim, me sinalizam: hoje é o dia do aniversário de uma grande amiga, velha e mui querida amiga: Berenice. Tenho a certeza de que, em nossa memória comum, o espaço da verdadeira amizade ainda permanece largo e arejado, mesmo após cinqüenta anos, permeados de tempo bom e intempéries. Parabenizo-a, nesta oportunidade e lhe ofereço, com o carinho de sempre, que ela bem conhece e se faz merecedora, os meus bolinhos de chuva.
Escrito por Clerzinha às 06h04
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Uma Mão Lava a Outra
Dezenas de vezes, durante toda a minha vida, ouvi e pronunciei essa frase! Não me recordo quando foi a primeira, mas tenho absoluta certeza da última vez que ela me veio à mente, aos lábios e aos ouvidos: foi há poucos minutos atrás, na padaria, quando a balconista ajudou-me a segurar o pacote e pagar as compras, até que eu conseguisse colocar na carteira o troco, utilizando-me apenas da mão esquerda, vez que tenho imobilizado o braço direito e, conseqüentemente, a mão que lhe corresponde. No momento em que, entre as curtas frases que trocamos, em tom amistoso e meio conformista, repeti o conhecido provérbio, tenho absoluta certeza do que eu estava querendo expressar, porém não sou capaz de precisar como aquela funcionária apreendeu minha fala – se é que apreendeu -, pois as palavras, além do vernáculo, possuem sentido idiossincrático, isto é, sua interpretação está sempre vinculada à maneira de ver, sentir e reagir das pessoas que as pronunciam ou captam. È provável que a moça possa ter acatado minha frase como um agradecimento a ela, em razão de sua solicitude, um significado de cunho social, ligado ao sentimento de cooperatividade. Dentro dessa linha, ainda poderia citar diferentes significações, mas acontece que não tenho intenção de fazer análise de um dito popular – não me atreveria a tanto, pois sou leiga em matéria de Sociologia, Antropologia ou Lingüística – e, sim, revelar detalhes de minha subjetividade frente aos acontecimentos do dia-a-dia, única razão que me motiva a tornar viável este Blog. E, nesse âmbito restrito da intimidade pessoal, o que eu disse de forma leve e espontânea, tem a ver, ao mesmo tempo, tanto com o sintoma psicológico da incapacidade física temporária com o qual estou sendo obrigada a conviver, como também com minha busca incessante de auto-aprendizado.
Aproveito esta oportunidade que a vida me está oferecendo, para entrar em contato direto, sem subterfúgios, com alguns limites físicos que a situação me impõe e, ao mesmo tempo, vou testando minha atual capacidade de adaptação às novas circunstâncias. Literalmente e mais, ao vivo e em cores, concluo: nem sempre, uma mão pode lavar a outra; às vezes, uma delas tem de se contentar apenas em SE lavar e a outra, em aguardar... Enquanto uma aprende - utilizando todos os seus talentos para si e também para se tornar apta ao enfrentamento de uma nova dinâmica imposta pela realidade - a outra, que sempre esteve a seu lado, auxiliando-a, desde a concepção no ventre materno, tem de se contentar em assistir passivamente às desajeitadas ações desse novo aprendizado, numa fase em que a espera é a chave para o retorno à normalidade... Eu e minhas metáforas!
Todas as pessoas, num ou n'outro momento de suas existências, se utilizam de metáforas para atingirem alvos perseguidos, seja de forma consciente ou inconsciente. A definição da palavra, segundo o dicionário, não é tão simples, no entanto, na prática, ela faz parte da nossa comunicação, principalmente quando pretendemos utilizar um termo no lugar de outro, cujo significado nos possa parecer inconveniente em determinadas situações...
Do ponto de vista psicoterapêutico - que é a “minha praia” - as metáforas (conscientes, inventadas) podem funcionar como ferramentas importantes para a criação de novas fantasias (saudáveis) que, ao serem colocadas no lugar das antigas (doentias), sempre acabam propiciando algum tipo de mudança a uma pessoa carente - de saúde mental, auto-conhecimento, ou até mesmo, quem sabe, auto-realização. Por outro lado, em se tratando de manifestações inconscientes, a busca de solução para os problemas dessa natureza pode ser revelada também a partir da análise dos sintomas de determinadas doenças - sejam elas de ordem física ou psíquica - que uma pessoa apresenta. A linguagem desses sintomas é avaliada como sendo uma metáfora que faz parte da comunicação não verbal da pessoa doente, na tentativa de encontrar saída para a resolução de seu(s) conflito(s) interno(s).
Depois do breve arrazoado sobre algo do que ainda conservo retido e bem conservado na memória - saberes adquiridos antes, durante e após cursar a Faculdade de Psicologia - resta-me retornar ao início do texto, para cumprir meu propósito de ME desvelar para o mundo virtual, ao mesmo tempo em que, aos poucos, ME vou descobrindo, numa fase de vida em que “todas as fotos de minha existência já foram batidas”, só me restando a tarefa de sua revelação. Minha auto-análise é lenta, mais por conta dos impedimentos técnicos da analista, do que pelo temor do retorno do reprimido, por parte da analisanda... A metáfora inconsciente da quebra de braço é real, pois posso comprová-la com documento hábil: utilizei esse termo de forma inadequada, quando redigi o texto História de Indios, publicado dias antes de me acidentar, sendo que pretendia dizer queda de braço (entre culturas). Ainda não fui capaz de decifrar satisfatoriamente esse ato falho... Então, para ME compensar, incorporo plenamente a terapeuta – no sentido de curadora – que habita dentro de mim, desde a infância (ela nem se preocupa muito com o aperfeiçoamento técnico que a formação lhe propiciou) e vou construindo MINHAS metáforas... Elas me confortam, me consolam e me ensinam coisas por demais necessárias nesta etapa transitória de ansiedades, algumas dores, muitos transtornos e rápida evolução. E a analogia, irmã gêmea da metáfora, me aponta para a observação inusitada de um braço e uma mão - tida como "boba", só teria servido para receber a aliança do casamento - que hoje estão conseguindo, entre outras tantas ações utilitárias, digitar, já com alguma ligeireza. As palavras superlotam minha mente, sempre em busca de troca, a qual se torna impossível fora da comunicação. Hoje, novamente, eu estou bem!
Escrito por Clerzinha às 16h15
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Humildade
Num dia qualquer do ano de 2005, a "ficha" da humildade caiu e, assim, pude iniciar minha ligação permanente com essa virtude, cuja linguagem aos poucos vou aprendendo a traduzir... Conto com o auxílio do Dicionário da Maturidade, uma ferramenta indispensável para a otimização dos meus diálogos com as emoções, paixões e ensinamentos que a convivência com o mundo me vem propondo, desde quando decidimos comungar a mesma existência. Foi um momento marcante, que vivi solitariamente e dele pude extrair a seguinte inspiração:
Eu Não Dou Conta
Não dou conta de mim,
Do que sou, do que quero,
Do que posso e do que não posso.
Não sei mais o que é possível,
O que é impossível,
O que pode ser provável
E o que se tornou improvável.
Quero tudo!
Tenho nada...
Quando posso tudo,
Sem fazer nada,
Porque dou conta de nada!
Nada É.
Tudo pode.
Ser é Tudo...
Poder é Nada!
De vez em quando, o jogo de palavras se torna meu entretenimento preferido, mas é preciso, no entanto, que estas façam sentido para mim... Não vale o passatempo, as simples "Palavras Cruzadas", que os Geriatras tanto recomendam às pessoas da Terceira Idade. Tenho produção própria e, acima de tudo, ME tenho, não preciso distrair-me de mim mesma, pois, com humildade - ainda que esta possa a muitos parecer uma afirmação cabotina - cheguei à conclusão de que, a esta altura da vida, o único aprendizado útil que posso arriscar-me a perseguir é o aprendizado sobre esta pessoa (eu mesma), que me tem em suas mãos!...
Escrito por Clerzinha às 10h54
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Histórias de Indio
Em antigo documentário sobre o Xingu, Orlando Vilas Boas relata com detalhes sua maravilhosa aventura junto aos silvícolas brasileiros, histórias de uma vida que todos os habitantes deste país deveriam conhecer. Entre tantas situações interessantes, três delas me tocaram e encantaram profundamente, motivo pelo qual desejo vê-las registradas neste meu rascunho de prosa:
Certa vez, na aldeia, apareceu um vizinho "do estrangeiro", interessado em conhecê-la melhor. Três índios apontados pelo sertanista lhe mostraram toda a região. Satisfeito com o que vira e, ao mesmo tempo agradecido pela hospitalidade, no momento de se despedir, o homem decidiu presentear seus cicerones. Como não se havia prevenido, sem portar qualquer objeto especial que lhe pudesse servir de regalo (adoro o termo, no sentido que lhe dão os portenhos), retirou do bolso um sabonete, dividiu-o em três pedaços, dando um a cada seu acompanhante. Em seguida, solicitou-lhes de presente uma flecha, para levá-la como lembrança daquela gente hospitaleira. Um dos índios pegou a flecha, quebrou-a, separando-a em duas partes desiguais, ficando com uma delas - a menor - dando a maior ao visitante...
De outra feita, conta Vilas Boas, que se encontrava ao lado de uma índia, a qual moldava barro para a fabricação de utensílios domésticos em miniatura, como tigelas e panelas, de diversos formatos - aves, insetos, além de outros animais - tudo sendo feito com esmero e perfeição de detalhes, quando, de repente, percebeu que uma criança, ainda muito pequena, filha da artesã, ia pegando um a um aqueles objetos prontos e os destruía. Após a terceira repetição, Orlando, curioso, questionou a mulher sobre o comportamento da pequenina, ao que ela lhe respondeu, com a maior naturalidade, que a criança "precisava fazer aquilo". Ele, não satisfeito com a resposta e sempre buscando compreender, insistiu, argumentando o seguinte: uma vez que as panelinhas serão destruídas, porque, então, não fazer "qualquer coisa", sem a necessidade de (perder tempo) tantos detalhes trabalhosos (alças, asas, biquinhos, etc.)? A índia-mãe, simplesmente reforçou-lhe que a menina tinha necessidade de destruir "aquelas panelinhas", não outras... Após exterminar onze peças, todas esculpidas com igual desvelo, a criança se afastou, indo juntar-se a outras, que brincavam em local próximo, enquanto a mãe calmamente dava continuidade à execução de seu delicado trabalho...
Num terceiro momento, relata o sertanista que estava sentado, ao lado de um índio e seu filho, um menino de aproximadamente oito anos de idade. A conversa parecia animada e interessante, quando o pai lhe disse que precisava sair para beber água. Vilas Boas questionou-o sobre a possibilidade de pedir à criança que lhe trouxesse a água, vez que estava ali sem ocupação. Respondeu-lhe simplesmente o índio, que não sabia se o filho desejava fazer aquilo e, decidido, saiu, indo cumprir seu intento. Insatisfeito em relação à sua própria curiosidade, o estudioso aproximou-se do menino e lhe perguntou se ele traria a água, caso o pai lhe tivesse feito o pedido, ao que o indiozinho prontamente lhe respondeu: - Sim!
Não me sinto capaz de exprimir meu encantamento em relação a tais relatos, um enlevo que se potencializa, quando me vêm à memória a figura e o tom do narrador, imagens e sons impossíveis de serem transportados para a minha própria narrativa.
Deparo-me com inúmeros questionamentos, inclusive os que me remetem aos conflitos e às tragédias relacionadas aos processos de colonização. Na quebra de braço entre culturas, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco... Nossos "selvagens" nos dão belos exemplos de convivência harmônica entre diferentes gerações; de respeito mútuo e incondicional à criança, aos velhos, à família e à comunidade. Ensinações valiosas acabam se perdendo e o encanto só consegue sobreviver através desse tipo de narrativa, documentos que, felizmente, alguém ainda está sendo capaz de preservar. Lamento o fato de que poucos demonstrem interesse e outros tantos - sempre muito poucos - tenham acesso a tais ensinamentos. Eles costumam ficar escondidos, dentro de fitas cassete, ou DVD, num acervo qualquer de entidade sem fins lucrativos, enquanto a televisão nos satura diariamente - dezenas de vezes ao dia - ao vivo e em cores, com cenas mais que chocantes de pais "civilizados" que jogam seus filhos pelas janelas de seus apartamentos.
Em meio à desolação provocada pelos atos desumanos com os quais sou obrigada a conviver na cidade, busco guarida na fala de um ser humano, que optou por estar junto, durante mais de quarenta anos, dos verdadeiros donos desta terra e também lutou pela sua causa. No meu entender, ele conseguiu perceber desde logo, que tinha muito a aprender, a partir desse efetivo e íntimo convívio, lições que os ditos civilizados provavelmente, ainda não foram capazes de "decorar"...
Escrito por Clerzinha às 14h45
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
|

|
|

|