Diálogo Em 3D

Compadre:

"Muito se tem falado sobre as delícias da terceira idade, mas eu nunca vi nenhuma delas e creio que jamais verei.

Fui passar o Natal e festas do fim do ano na Bahia, com a minha família.Passei todos aqueles dias festivos na frente da telinha, bebendo coca-cola e cantando jungle bells, na companhia dos meus netos e seus amiguinhos, igualmente ranhentos. No dia primeiro do ano, amanheci na praia, fiquei entre duas pocinhas, desmaiei. Levaram-me para casa.

- Compadre: serão estas as delícias da terceira idade?"

(a) Jorge Amado - (conforme publicação sem data). 

- É verdade, compadre! Eu também, na terceira idade, nunca vi essa tal delícia e penso que jamais verei.

Finalmente, estou morando em uma clínica de repouso para idosos iguais a mim. Não tenho com quem conversar. Assino dois jornais: O Estadão de São Paulo e o J.C. de Jundiaí, mas leio sozinha. Todos têm o seu problema de vista ou outra qualquer coisa para despistar. Não gostam de ler ou escrever, afinal, não gostam de nada. Mostrei uma crônica a uma senhora. Ela perguntou:  -Qual é a música? Ainda não pensei na composição, mas deverá ser um samba bem brasileiro.

Será melhor para nós, da terceira idade, esperarmos pela volta ao planeta, conforme os livros espíritas:

"Voltaremos como o pássaro

 Quando o solo se transformar em jardim

E falaremos de amores e outras vidas,

Que jamais terão fim.

 

Voltaremos, como brisa acariciante,

Outra vez a existir

E nossa alma em outras almas misteriosas

Voltaremos a sentir

 

E, se voltar é a lei dos caminhos,

Nosso morrer, ao viver, alegria voltará

Entre névoas luminosas

Poderemos sorrir!"

a) Nísia M. Duarte - (22.10.97).

Caros velhos:

Mais de dez anos se passaram, que lhes posso dizer? Justamente eu, uma caloura da terceira idade e já portadora de tanta desesperança...

Sei de suas vidas, algo a mais do que os dois juntos puderam saber sobre as mesmas, pois me foi dado o privilégio de lhes testemunhar o final, mas, em contrapartida, estou tendo de conviver com a dúvida sobre o meu próprio fim que, espero, não seja menos digno do que o de vocês...

Sinto-me desapontada, enquanto sexagenária. Não vislumbro qualquer expectativa em relação ao desenrolar do espetáculo da vida, que acontece no palco do teatro da modernidade, ao qual sou obrigada a assistir, mesmo tendo consciência de que seu enredo caminha na contramão de todas as minhas crenças e ideais.

Chego a pensar que vocês dois, meus queridos - unicamente pelo fato de terem enfrentado um diferente tipo de realidade social, que só aconteceu para a velhice do século XX - ainda se podem considerar anciãos privilegiados, pois nenhuma de suas queixas me pareceu desesperadora, principalmente a sua, compadre, um homem que foi e continuará sendo eternamente reverenciado também pela juventude.

No meu entender, hoje, todos sofremos: nós, os velhos, de desrespeito físico e social; as crianças, de desamparo afetivo e moral, enquanto os jovens e adultos, considerados a porção produtiva da sociedade, se deixam devorar pelo consumo e pela ilusão da imagem, ou do poder. Acredito, então, que as "delícias da terceira idade" sejam não mais que ilusões e destas, feliz ou infelizmente, eu já comecei a me livrar...

a) Clerzinha - (Julho de 2008)