A Borboleta e o Elefante

Há muitos anos, quando participava de oficina sobre interação fisiopsíquica, foi-me consignado escolher um animal que me representasse ou, melhor dizendo, um animal com o qual eu pudesse identificar meu mais legítimo anseio, este último, traduzido como "vontade da alma". Sem titubear, optei de pronto pela borboleta, com a justificativa de que ela me sugeria leveza, liberdade e flexibilidade. Leveza, por ser capaz de pousar com elegância, até mesmo numa delicada pétala ou folha; liberdade e flexibilidade, pelo fato de haver obtido junto à natureza licença permanente para adejar de flor em flor, através de bosques, pomares e jardins. Anseio é a vontade da alma. Anseio não é falso. A alma precisa viver o que gosta em cada coisa! Naquela oportunidade, não me lembrei de mencionar o indicador beleza - uma precaução inconsciente - motivada talvez pelo fato de saber que nem todas as borboletas podem ser consideradas belas, ao menos no que diz respeito à opinião defendida pelo senso estético comum. Descobri que sentir-se leve, livre e solto, no espaço circunscrito desta existência, é o que ensejava o “meu bicho”.  Eu necessitava me permitir resgatá-lo, uma vez que não estava disposta a suportar o alto custo de sua manutenção, no esconderijo secreto de minha mente racional. Essa cobradora, algumas vezes, costuma ser cruel e avarenta, principalmente quando lhe permitimos nos fazer cobranças superiores às nossas dívidas, uma concessão arriscada, que sempre acaba nos levando ao desespero e este é, a meu ver, o maior inimigo da mente e do corpo saudáveis, pois lhes reserva culpas e somatizações.

Muito antes, porém, do fato terapêutico acima descrito, ainda na infância, tive a oportunidade de assistir a um filme cujo tema era o circo. Saí do cinema maravilhada com as proezas dos trapezistas, a alegria dos palhaços e também com o romantismo do casal herói, porém, mais do que todas essas atrações, a apresentação de um elefante generoso e inteligente marcou-me fundo, um registro importantíssimo, do qual me dei conta somente décadas depois. A partir de determinado comando, o animal deitou-se sobre uma criança, que ainda poderia ser considerada pequena, tendo permanecido na posição decúbito ventral durante menos de minuto talvez, tempo que me pareceu demasiadamente longo e perigoso, até o momento em que, a um sinal do domador, ele se foi erguendo, pata à pata, tranqüila e delicadamente, cuidando para não tocar o objeto que tinha sob seu corpo e poder. Em seguida, a menina, vestida de maiô repleto de lantejoulas coloridas, levantou-se, fez reverência e os três - homem, elefante, criança - receberam muitos aplausos, tanto da platéia circense (nada mais que os figurantes), quanto dos demais espectadores daquela matinê dominical (eu e a geração infantil dos anos 50). Cena gravada na fita magnética desta “memória de elefante”, que se gaba de ter sabido preservar as tomadas mais significativas da película essencial de sua vida, trechos que pouco a pouco se vão revelando, justamente numa fase bastante oportuna para reprises com novas falas e novos questionamentos...

  • Para ser leve, necessito ser borboleta? É lógico que não. Posso ser elefante!

  • Para ser livre, posso ser elefante? Não, para ser livre, é preciso que seja borboleta!

  • Para ser flexível, quem preciso ser? Talvez possa ser ambos, alternando e ou conjugando, de acordo com as circunstâncias...

  • De que maneira? Elefante, para as demandas da mente – olhar para fora, estar atento aos comandos externos – com a consciência de que, muitas vezes, é preciso “trocar a paisagem”, para se ter liberdade de fazer outra coisa... Borboleta, para as demandas do corpo – olhar por dentro é simplesmente sentir-se – cair na real, viver o presente, tornar-se capaz de abrir mão do sonho pensado (não do sonhado, evidentemente...). O que vem pode ser bom, mas se houver sonho, nada será bom, porque nada é sonho...

O querer vem da mente, a necessidade vem do corpo. Não posso confundir obrigação de ser, com sentimento de ser. Em caso de dúvida, contrato um tradutor intérprete, para traduzir e ou interpretar a linguagem do meu corpo...

Descubro, finalmente, que o fruto do conhecimento é sempre o mais saboroso e precisa ser partilhado! É por esse motivo que estou aqui.