Blog da Clerzinha


Massarocas

Neste relato, a criança de ontem e a velha de hoje são a mesma pessoa. Mais de meio século separam os hábitos de uma e de outra para a satisfação da mesma necessidade – a da sensação básica de tato – atualmente tida como estímulo vital para a sobrevivência, a exemplo de outras tantas, como as necessidades de oxigênio, de líquido, de comida, de descanso, de eliminação vesical, intestinal, etc. Imprescindível, desde o nascimento – para garantir confiança a um organismo que almeja desenvolver-se – até a velhice – na validação de uma longa sobrevida – o tato, classificado como “sentido de proximidade”, possui parcela significativa de responsabilidade sobre o comportamento, uma vez que também é considerado linguagem, pois comunica afetos e envolvimentos fundamentais aos relacionamentos humanos. Tocar é um verbo que precisa ser conjugado na voz passiva, do nascimento à morte – ser tocado – para justificar a nossa verdadeira missão de viver e sentir a vida, esse é o postulado que entra em confronto com todas as minhas decepções frente à impessoalidade do mundo moderno.

Disse-me minha mãe que fui amamentada até bem crescidinha e que, pelo fato de havermos residido numa cidade quente do litoral, durante os meus primeiros cinco anos de vida, ela chegava a me dar quatro banhos diariamente. Tenho absoluta certeza de que jamais refletiu sobre a importância da estimulação tátil na infância, mas preciso admitir que acertou na mosca – como se costuma dizer – quando, motivada pelos preceitos da boa higiene, usou seu toque maternal numa proporção maior do que a das simples e esporádicas carícias que uma dona de casa poderia oferecer a seus filhos naquela época... E, quando minhas necessidades de toque não mais estavam sendo devidamente satisfeitas, consegui encontrar num chumaço de algodão branco, macio e renovável, que chamava de massaroca, a solução ideal para supri-las. Com aquele “objeto intermediário”, tão inusitado quanto descartável, costumava me acariciar e também as pessoas mais próximas. Sempre exigia a renovação diária do algodão, para preservar-lhe a leveza e maciez, com a delicadeza de carinho direcionado à textura de uma pele infantil. É provável que tais afagos, praticados geralmente antes do adormecer e logo após o despertar diário, me tenham auxiliado na prontidão de um sistema sensorial permanente, assim como a oferta de um passaporte adequado para que eu pudesse adentrar com alguma desenvoltura no mundo das sensações, especialmente as eróticas, em minha fase reprodutiva de vida... Sinto-me agraciada com esse legado saudável de minha infância, que vem compensando outros tantos, nem tão saudáveis assim...

As imagens que colecionei, repletas de sentido háptico - (o tato em nível mental) - vêm-me possibilitando ressignificar a velhice em termos de pele, atitude que supera qualquer possível desalento em relação à carência dos “toques de amor”. As massarocas de ontem, finalmente, transformaram-se em chumaços de graça e ternura – meus netos, especialmente nesta fase, as netinhas, que são ainda pouco mais que nenês – com a vantagem de que são massarocas que se expressam e, mais ainda, através da linguagem não verbal, repleta de mensagens táteis, as quais estão sempre à altura de minhas necessidades de consumo afetivo. Não sei se, em algum ponto obscuro dos dias futuros que me esperam, chegarei ao nível de solidão de Donna Swanson, autora que apresentei na publicação anterior. Quando li pela primeira vez seu poema – muito antes de haver atingido a velhice – tive crise convulsiva de choro, porém não consegui atinar o verdadeiro motivo daquela reação exagerada. Talvez ele esteja bem guardado nas dobras do meu inconsciente, algumas das quais faço nenhum esforço para explorar...

Quando tinha dezoito anos, lembro-me bem, foi por ocasião de uma viagem do interior para a capital, vi um casal de idosos – praticamente anciãos, de acordo com os padrões daquela época – estavam de mãos dadas e sentados na poltrona à minha frente. Durante todo o trajeto, não tirei os olhos daqueles dois, sentia-me quase hipnotizada com as singelas cenas de carinho, no meu entender, as mais românticas que havia presenciado até então. O ônibus chegou ao seu destino e os velhinhos permaneceram de braços entrelaçados por mais alguns minutos; não tinham pressa de sair de seus assentos... Tive ímpeto de abordá-los, para beijar aquelas quatro mãos abençoadas, que ainda eram capazes de transmitir amor. Não o fiz, porém, temendo ser mal interpretada. Contive-me e me restringi a fotografar na memória a bela cena, que conservo nítida até hoje. Quiçá ela ainda possa transformar-se em esperança a ser registrada junto a todas as imagens finais do meu álbum de fotos.

Esperança! Para mim, sinônimo de futuro, como já tive oportunidade de declarar por aqui. Só me resta aguardá-la e me deixar acariciar...




Escrito por Clerzinha às 12h11
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