Parte II - O Toque
O poema de Donna Swanson, abaixo transcrito, foi considerado a expressão mais eloqüente da necessidade do "toque do amor" na velhice. ( Fiz questão de colocar original e tradução - de acordo com a referência bibliográfica assinalada - como uma homenagem aos leitores que residem acima da linha do Equador e que muito me honram com suas presenças neste blog).
Comovam-se, mas não deixem de refletir:
Minnie Remembers
"God,
My hands are old.
I’ve never said that out loud before
But they are.
I was so proud of them once.
They were soft
Like the velvet smoothness of a firm, ripe peach.
Now the softness is more like worn-out sheets or withered leaves.
When did these slender, graceful hands become gnarled, shrunken claws?
When, God?
They lie here in my lap,
naked reminders of this worn-out
body that has served me too well!
How long has it been since someone touched me
Twenty years?
Twenty years I’ve been a window.
Respected.
Smiled at.
But never touched.
Never held so close that loneliness
Was blotted out.
I remember how my mother used to hold me,
God.
When Y was hurt in spirit or flesh,
she would gather me close,
stroke my silky hair
and caress my back with her warm hands.
O God, I’m so lonely!
I remember the first boy who ever kissed me.
We were both so new at that!
The taste of young lips and popcorn,
the feeling inside of mysteries to come.
I remember Hank and the babies.
How else can I remember them but together?
Out of the fumbling, awkward attempts of new overs came the babies.
And as they grew, so did our love.
And, God, Hank didn’t seem to mind
if my body thickened and faded a little.
He still loved it. And touched it.
And we didn’t mind if were no longer beautiful.
And the children hugged me a lot.
O God, I’m lonely!
God, why didn’t we raise the kids to be silly
nd affectionate as well as dignified and proper?
You see, they do their duty.
They drive up in their fine cars;
they come to my room to pay their respects.
They chatter brightly, and reminisce.
But they don’t touch me.
They call me "Mom or Mother’ or "Grandma’.
Never Minnie,
My mother called me Minnie.
So did my friends,
Hank called me Minnie, too,
But the’re gone.
And so is Minnie.
Only Grandma is here,
And God! She’s lonely"
(Donna Swanson)
Extraído de Images, Women in Transition, compilado por Janice Grana, Winona, Minnesota, St. Mary’s College Press, 1977:
Deus,
Minhas mãos estão velhas.
Nunca disse isso antes em voz alta
Mas estão.
Antes eu sentia tanto orgulho delas.
Eram macias
Como a maciez aveludada de um pêssego firme e maduro.
Sua maciez agora é mais como a dos lençóis velhos
Ou das folhas murchas.
Quando foi que mãos esguias e graciosas como aquelas
Tornaram-se estas garras encolhidas e recurvadas?
Quando, Deus?
Aqui pousam elas em meu colo,
Lembranças cruas deste desgastado corpo que me serviu tão bem!
Quanto tempo faz desde a última vez em que alguém me tocou?
Vinte anos?
Há vinte anos sou viúva.
Respeitada.
Objeto de sorrisos.
Nunca porém tocada.
Nunca trazida para tão perto que a solidão se dissipasse.
Lembro do modo como minha mãe costumava me segurar,
Deus.
Quando estava com minha carne ou meu espírito doendo,
Ela me puxava para muito perto de si,
Alisava meu cabelo sedoso,
E acariciava-me nas costas, com o calor de suas mãos.
Oh, Deus, estou tão só!
Lembro-me do primeiro rapaz que me beijou.
Éramos os dois tão inexperientes!
Sabor de lábios juvenis e pipoca,
Sensação íntima de mistérios por virem.
Lembro-me de Hank e dos bebês.
De que outro jeito posso lembrar-me deles senão juntos?
Das desajeitadas e ávidas tentativas de
Amantes novos brotaram os bebês.
E conforme cresciam, crescia nosso amor.
E, Deus, Hank parecia não se importar
Que meu corpo tivesse perdido um pouco de seu brilho e elasticidade.
Ele ainda o amava.
E o tocava.
E não nos importávamos por não estarmos mais tão lindos.
E as crianças abraçavam-me tanto.
Oh, Deus, estou sozinha.
Deus, por que não criamos as crianças para serem tolas
E afetuosas assim como dignas e adequadas?
Sabe, elas fazem o que devem.
Dirigem seus belos carros,
Vêm até meu quarto em sinal de respeito.
Sua conversa é animada, recordam-se
Mas não me tocam.
Chamam-me "Mamãe", "Mãe" ou "Vovó"
Minnie, jamais.
Minha mãe chamava-me Minnie.
Meus amigos também.
Hank me chamava também de Minnie.
Estes porém já se foram.
Como Minnie, que se foi.
Só Vovó restou,
Deus!
E como ela está só!
Montagu, Ashley (1905), Tocar: O Significado Humano da Pele/ Summus (SP), 1988.