Sem Tempo
O presente que se ignora, vale o futuro - é o que afirma Machado de Assis, em um de seus mais famosos contos - A Cartomante.
O descaso em relação ao presente, a meu ver, poderá ter implicações gravíssimas, em termos de qualidade de vida (e, por que não, de morte?), no futuro de qualquer indivíduo que se mantenha saudável até a última fase do ciclo vital, ou seja, a velhice.
Como a maioria das pessoas que conheço, principalmente as pertencentes à minha faixa etária, fui condicionada, desde criança, a nunca deixar de “agir corretamente” e a buscar perfeição, em termos comportamentais, no sentido de atender às exigências desta nossa sociedade. Aprendi, desde cedo, que deveria agradar a todos - sendo, principalmente, obediente, cordata e uma porção de outros adjetivos, sempre cuidadosamente colocados no feminino - e que a maior satisfação que eu poderia almejar seria a de constatar a aceitação dos outros em relação ao meu proceder. Em meio a tantos aprendizados, fui adquirindo capacidade invejável, não apenas para abrir mão da maioria de minhas demandas individuais e internas, mas também para postergar prazeres simples, como por exemplo, aqueles relacionados à experimentação e vivência do Aqui e Agora. Imaginei que minhas pequenas renúncias do dia-a-dia se somariam tal qual cifras em uma caderneta de poupança e que, ao final, a recompensa viria, em forma de polpudo saldo credor, para ser consumido sem culpa, a meu bel prazer, a partir de um dia qualquer do futuro... Os dados da minha contabilidade existencial apontam um irrecuperável desfalque na coleção de bons momentos, mas ainda assim, na coluna dos lucros, o percentual atribuído às minhas pequenas transgressões foi maior, em termos de “grandes” prazeres -os da infância, os da juventude e até mesmo os da vida adulta - e, por conta desse resultado parcial, os números do balanço geral ainda não estão no vermelho... Tal constatação, somada ao fato de eu estar tendo tempo suficiente para desaprender e me desvencilhar do que não foi e jamais será bom para mim, me confere um sentimento de gratidão pela vida - o mesmo que o autor deste poema, provavelmente, não deve ter sido capaz de conhecer, até o momento em que resolveu brindar-nos com esta triste e bela confissão:
Se eu pudesse viver novamente minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais,
seria mais tolo ainda do que tenho sido.
Na verdade, acho que bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres, subiria mais
montanhas e nadaria mais em rios.
Iria a mais lugares, lugares que nunca fui,
tomaria mais sorvete e comeria menos
lentilha, teria mais problemas reais e menos
problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e
produtivamente cada minuto da sua vida.
Claro que tive momentos de alegria.
Mas, se eu pudesse voltar a viver, trataria de ter
somente bons momentos.
Porque, se vocês não sabem, disso é feita a vida, só de
pequenos momentos. Não percas por favor o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma
sem um termômetro, uma bolsa de água quente,
um guarda-chuva e um pára-quedas.
Se eu voltasse a viver, eu viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar
descalço no começo da primavera e continuaria
assim, até ao final do outono.
Eu daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais
amanheceres e brincaria com mais crianças, se eu
tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, eu tenho 85 anos e eu sei que estou morrendo...
(Jorge Luiz Borges)
Pelo fato de haver confiado demasiadamente no futuro, delegando-lhe todas as recompensas por seu bom desempenho no passado - formado em grande parte de presentes perdidos - o poeta precisou apoiar-se na ilusão do SE, onde uma outra vida teria a incumbência de acontecer para ratificar a validade de sua existência. Louvável poema, para uma lamentável realidade!
Escrito por Clerzinha às 20h17
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