Breves e Leves Reflexões Sobre a Velhice
Parte I - O Tempo
Uma causa evidente desta vida solitária que levo, reside na total falta de interesse pelas atividades colocadas à minha disposição - através dos chamados Centros de Convivência Para a Terceira Idade e de alguns projetos propostos por outras instâncias da sociedade local - pelo fato de não conseguir vislumbrar oportunidades concretas de vivenciar, em qualquer posição que me coloque, uma Velhice Bem Sucedida. Não entrarei em detalhes sobre a qualidade das propostas dessas instituições - em termos de manutenção da saúde mental, atualização de conhecimentos, educação continuada, desenvolvimento de novas e antigas habilidades - para incentivar e facilitar ao idoso uma participação social ativa, pelo fato de que, aqui e agora, tenho de me contentar em ser simplesmente público alvo... A mudança repentina de fase de ciclo vital - da adultez para a senescência (como querem alguns autores) - bem como a de status profissional - da vida profissional ativa para a aposentadoria (quase compulsória...) - não me servem de justificativa para aderir a qualquer tipo de passividade existencial ou intelectual, um comportamento comum, que costumo detectar na maioria de meus companheiros de faixa etária, e que, para ser franca, muito me incomoda. Na mesma proporção, também observo, estampado em alguns semblantes - independentemente da quantidade de rugas - um sentimento de descaso para com a maturidade, que acabou caindo na malha fina das redes do senso comum, transformando-se em sua principal vítima. Pelo fato de ser alvo de uma diversidade de expectativas - por exemplo, as relacionadas ao mercado, compra e venda de produtos anti-envelhecimento - e de concepções - só para lembrar o jargão: "a idade do condor" - o preconceito em relação ao binômio velho/envelhecer, a cada dia, fica mais e mais reforçado. Homens e mulheres, sem relevância de nível sociocultural e de ocupação, apresentam crenças e posturas negativas frente à velhice; trata-se de uma verdadeira fobia generalizada. Lamento duplamente: como sexagenária que sou e profissional da área da Gerontologia que fui.
Para amenizar um pouco a frustração pela qual me vejo invadida em momentos como este - onde tais verdades ficam consignadas até mesmo na tela do computador - dou-me o direito de declarar publicamente, através desta mesma tela e em letras garrafais - que simbolizam o meu grito digital - o seguinte :
Sou vlha por convicção; estou sozinha por força das circunstâncias e vivo solitária por opção!
As duas últimas situações, a qualquer momento, poderão ser alteradas, ao embalo da vida, no entanto, faço votos de que a primeira - em razão desse mesmo embalo - jamais chegue a sofrer mudança semântica significativa, pois sinto que, de verdade, engatei na velhice! Posso resgatar com serenidade tudo de bom que amealhei durante décadas, cuidando para que nada escoe como água por entre os dedos, e com a certeza de que saberei viver com leveza o porvir.
Admito, sim, que um velho possa deixar de ser velho - provavelmente quando decidir fixar residência no País das Ilusões, um lugar que conheço de sobejo e ao qual pretendo jamais retornar - e que, de maneira inusitada, também seja capaz de retornar à obscuridade do infantilismo - como, por exemplo, através da degeneração, especialmente a mental - todavia, faço questão de sublinhar: o incapaz não é velho, é apenas incapaz; o velho o será, única e exclusivamente por conta do destino, vez que pode fazer a opção de ser apenas velho...
Estudos de cá, preconceitos de lá, ilusões acolá... Fato concreto é que o Tempo continua sendo, indiscutivelmente, o maior patrimônio da velhice. A sabedoria, mesmo bem avaliada, jamais lhe tomará a primeira posição! Uma pena, pois é nela que costumo investir, ainda que sem fanatismo...
Outro dia, andando pela calçada desenhada da praia, resolvi brincar com o Tempo, só para com ele trocar de lugar e me sentir mais sua amiga, criando intimidade... Resgatando um pouco do compasso ligeiro da juventude e me deixando levar pelo ritmo da maturidade, declamei:
Bom
para o tempo, é o espaço
para o espaço, é dar tempo
para dar, é ter tempo
para ter, é sem tempo,
com espaço e no tempo
para, com tempo,
ter espaço e tempo!
Ele simplesmente me respondeu, naquele seu tom severo, que todos bem conhecem:
- Não adianta me enrolar!...
Escrito por Clerzinha às 09h17
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