Sopa de Pedras
Conta a lenda que:
uma mulher pobre e desprevenida teve de se mudar para região que pouco conhecia onde, de repente, se viu isolada, sem recursos materiais e com fome. A noite se aproximava, o frio aumentava e o estômago doía. Aflita, mas sem se perder em meio à desolação de sua realidade, sentou-se na soleira da porta de casa e pôs-se a explorar o ambiente à sua volta, ao mesmo tempo em que mentalmente fazia rápido inventário de todos os seus pertences. Num primeiro momento, constatou: possuía ótimo fogão - provido de lenha suficiente para dois ou três dias de uso - uma grande panela, água à vontade; no quintal havia pedras, muitas pedras, de diversos formatos e tamanhos. Além de tudo isso, avistou fumaça saindo das chaminés de algumas habitações muito próximas à sua. Desse modo, conseguiu perceber que tinha companhia por perto, poderia não estar tão só o quanto supunha... Da pausa, à percepção; desta, à certeza; depois, à coragem e, a partir daí, à criação, seguida da ação: minutos após, estava a mulher batendo nas portas das residências de seus vizinhos, apresentando-se como nova moradora da aldeia e oferecendo a todos os seus préstimos. Colocava-se como boa dona de casa, cozinheira muito versátil, capaz até mesmo de fazer deliciosas sopas de pedras!
- Que lugar abençoado, dizia, vamos poder saborear juntos muita sopa de pedra, minha especialidade, pois a matéria prima temos e com fartura...
Os vizinhos, mais curiosos que generosos, lhe deram a atenção que esperava e, assim, os diálogos foram-se aquecendo, a ponto dela se ver, em poucos quartos de hora, recebendo tantas sugestões, quanto mais pertences para a confecção daquele prato inédito, que todos ansiavam por experimentar. De volta à casa, a mulher separou cuidadosamente, uma a uma, as oferendas para a sua primeira e inédita sopa... Àquela altura, a novidade culinária já podia contar com cenouras e vagens fresquinhas, batatas tenras, folhagens diversas, alguns temperos de cheiro e até, vejam só, um suculento naco de toucinho!
A noite chegou devagar, embalada pelo ritmo das pedras batendo no fundo da panela, que assentada sobre o fogo, abrigava o turbilhão líquido e colorido da mistura densa e saborosa, cujo aroma se espalhou pela cozinha, quintal, até a vizinhança. Mais tarde, sentindo-se aquecida, saciada, alimentada e muito satisfeita em razão das novas amizades que conquistara, finalmente, a mulher pôde dormir em paz...
Cada leitor dá à história um valor, um peso, uma interpretação. E as interpretações serão tantas quantas forem as leituras, a ponto de se poder dizer: A cada pessoa, uma sopa de pedra... ou, quem sabe: Cada um tem a sopa de pedra que merece...
Importante é se possuir consciência, tanto da impossibilidade de receita, como da exigência do ingrediente indispensável desse prato altamente nutritivo, ou seja, a pedra, no singular ou plural, pois ela lhe dá identidade...
Ultimamente, muito me tenho alimentado de sopa de pedras, também pela abundância de matéria prima à minha disposição... A variedade, bem como as diversas combinações, que não me permitem cair na mesmice do cardápio, acontecem em função da capacidade criativa e da valorização que costumo atribuir aos relacionamentos construídos, não apenas no meu cotidiano, mas também os que aconteceram durante o transcorrer de toda a minha vida até aqui. Por ora, sinto-me capaz de saciar-me, alimentar-me e, ao mesmo tempo, gratificar-me com o ato contínuo de produzir e poder dividir com os “vizinhos” mais próximos minhas sopas de pedra de cada dia.
Escrito por Clerzinha às 14h27
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