Provérbio Chinês
Confesso que, até há alguns minutos atrás, estava sem assunto, como se costuma dizer, para iniciar minha conversa semanal. Faltava-me o mínimo de motivação interna, no sentido de desejar comentar qualquer acontecimento externo – por exemplo, a comemoração do Dia das Mães – ou interno – meus sentimentos de mãe e de filha – pois o excesso de conotação comercial que a cada dia, mais e mais, a data vem merecendo, chega de fato a me irritar e, o que é pior, interfere nos meus interesse e prazer de estar fomentando novas demandas de auto-conhecimento, para dividi-las ou trocá-las com quem estiver interessado. Acontece que, ao tentar recolocar no armário minha agenda de 2007, que estava fora de lugar, e tendo de ajeitar alguns papéis avulsos, juntados à sua primeira página, deparo-me com a seguinte anotação:
“Me ame quando eu menos merecer, pois é quando eu mais vou precisar”
(Provérbio Chinês)
Lembro-me ainda do impacto que a frase exerceu sobre mim, num primeiro momento, quando com ela tive contato, em tempo e lugar que ora não consigo precisar. Tenho a impressão de que funcionou como uma espécie de apelo emocional da minha voz interna – a que sempre trabalha a meu favor – no sentido de encontrar solução proveitosa para alguns conflitos de ordem afetiva, com os quais tive de me deparar em determinada época. Relutava em assumir a total responsabilidade sobre os meus sentimentos – positivos, ou negativos –, independentemente deles terem sido provocados (por outrem) ou invocados a partir da minha própria imaturidade, duas realidades muito diversas, que eu insistia em ignorar: se amava, era porque o outro merecia; se carregava mágoa, era porque o outro me magoara; se chorava, era porque algo ou alguém me havia feito chorar; se ria, era porque “a coisa” era engraçada e, assim por diante... uma sucessão de equívocos – onde o meu Eu sempre se encontrava “do lado de fora” - que me privou, durante mais anos que o presumido, da maravilhosa sensação de me poder sentir Eu mesma, Em mim, Para e Por mim.
Fato é que o provérbio chinês conseguiu abalar de certa forma minha estrutura afetiva de mãe e, por conta disso, estou-me dando a oportunidade de comentá-lo sem, no entanto, necessitar do manto de santa - com o qual os cristãos costumam vestir suas mães - ou ter de calçar os sapatinhos apertados das mulheres chinesas, com a intenção de me propor o estabelecimento de uma relação sensata entre a fala oriental - por mim interpretada como um grande apelo - e o amor materno, esse, tão exaustivamente glorificado, em quase todos os cantos do mundo, especialmente nesta data.
Não tenho conhecimento de mãe que, em algum momento de sua vida – antes, logo após, ou muito tempo depois do nascimento de seu filho – não se tenha deixado trair pelo Amor Condicional, ou seja, aquele sentimento tido e visto como puro, que ora sugere, ora solicita, e mesmo, nas situações periclitantes, acaba exigindo do filho algo a mais do que ele próprio é capaz de se dar ou, pior ainda, de lhe dar, como prova de gratidão, apenas pelo fato de havê-lo trazido a este mundo. No meu entender, esse é o amor que nos chega embrulhado p'rá presente e permanece o tempo todo atado à palavra merecimento, como se amor de verdade acontecesse unica e tão somente “por causa de”...
Plagiando sem qualquer escrúpulo o pensamento chinês e sem me preocupar com sua significação original, transporto-o até a minha realidade – que não deve estar distante das realidades das demais mulheres destes tempos modernos – na qual o Amor Incondicional, a mais verdadeira modalidade desse sentimento, vem encontrando sérias dificuldades para continuar sobrevivendo... Poucas pessoas se dão conta de que amar incondicionalmente significa amar “apesar de”...
Portanto, como lembrança de mais um Dia das Mães, aqui deixo gravada minha sugestão:
Mulher, ama com Amor Incondicional, aquele ou aquela que necessita chamar-te de Mãe!
Escrito por Clerzinha às 08h09
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