Blog da Clerzinha


Bolinhos de Chuva

Dia chuvoso! Desde cedinho, de tempos em tempos, vou ao terraço, olhar para o céu, na esperança de constatar alguns minutos de estiagem, a fim de que eu possa sair desta toca e, finalmente, levar a cabo minha principal atividade diária, a caminhada, da qual já me tornei dependente, tanto física, como psiquicamente. Aos poucos, vou percebendo: hoje, o dia não me favorecerá.

Qualquer tipo de dependência, no meu caso, me parece prejudicial, desde a mais comum, no âmbito da afetividade, como por exemplo, a dependência da companhia de gente querida, até a considerada mais positiva, no que se refere à manutenção da qualidade de vida, ou seja, a dependência de exercícios ou atividades físicas. Incomoda-me o fato de não me sentir totalmente livre, porém, de imediato, reconheço que liberdade total não existe e, para remediar tal incômodo, imagino que posso circunscrevê-la numa área onde eu me perceba inteiramente à vontade... - Qual seria então, dentro de mim, essa área?

Imediatamente, vem-me à mente a palavra memória. - Ah, eis uma parte minha, que de fato jamais me decepcionou! Tem também a vantagem de poder ser acessada a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer espaço ou situação em que me encontre e com a garantia de que ela não padece de um mal muito comum, neste início de século, apresentado por grande parte das pessoas próximas à minha faixa etária: o esquecimento. No presente, de minha pródiga memória venho dependendo, nem tanto para me distrair, menos ainda, para matar o tempo e, sim, imbuída sinceramente da intenção de me deleitar com o prazer das lembranças, que sempre me acodem no momento certo.

Chove lá fora, estou sozinha dentro de casa, espero ninguém, pois no meu dia-a-dia, somente eu existo. Hoje, o telefone, que já tocou uma vez, não irá mais tocar, bem o sei, nem por isso me entristeço, não o quanto eu mesma poderia supor que me entristeceria por estar só, há décadas atrás... Para compensar a falta de gente à minha volta, conto com dezenas de nítidas, coloridas e luminosas imagens, que fazem parte de minhas recordações. Lembro-me de pessoas com as quais partilhei minha vida, numa época em que eu ainda não me havia capacitado a prescindir de companhia. E houve sóis, ventos, noites e dias; e houve também muitas chuvas, porém muito diferentes desta de agora, porque eram chuvas regadas a bolinho de chuva!

E pensar que nenhuma importância eu costumava dar àqueles bolinhos! Geralmente, experimentava um ou dois apenas, com açúcar e canela, que lhe davam sabor especial. Não os valorizava, pois não apreciava doces, ao contrário de hoje, que tanto os desejo, sendo que deles tenho de me afastar... Também detestava os dias chuvosos e não sabia ficar sozinha. Acredito mesmo que gostava de quase nada, mais pelo fato de pouco conhecer, do que por muito desdenhar. Na realidade, do ponto de vista material, tinha o mínimo, porém, tudo possuía, numa ambigüidade fácil de se entender... Atualmente, deliciando-me apenas com a existência de muitas coisas - e sem ousar dizer, em sã consciência, que nada tenho - posso garantir que tão somente Me tenho, de corpo e alma, sem açúcar, mas com afeto. O afeto é para mim o doce mel da alma. Provavelmente, aprendi a valorizá-lo, também nos momentos em que assistia o ritual de minha mãe, em frente ao fogão, fritando seus bolinhos de chuva e emprestando à tarefa todo carinho, pois era com seus petiscos que costumava sustentar e garantir a amizade das pessoas que gostava, principalmente em dias como este, quando as saídas ficavam tão inviáveis quanto a minha referida caminhada, um contratempo que me levou de volta ao passado, meu fiel companheiro deste início de velhice.

Ao redigir este texto, imaginei que iria concluí-lo antes da chuva passar. Quem passou depressa foi o tempo, que me obrigou a deixar descansando a mente e as palavras, por aproximadamente doze horas... Entre refeição, televisão e o acordar, após uma noite de sono, retomo às minhas memórias, que aos poucos vão-se tornando mais e mais obnubiladas, devido a presença da claridade, anunciando a chegada de um novo dia. Ele penetra através da vidraça e me confidencia que, logo, logo, o sol estará por aqui... - Que dia é hoje?

A consciência do presente, aliada à cronicidade dos afetos maturados dentro de mim, me sinalizam: hoje é o dia do aniversário de uma grande amiga, velha e mui querida amiga: Berenice. Tenho a certeza de que, em nossa memória comum, o espaço da verdadeira amizade ainda permanece largo e arejado, mesmo após cinqüenta anos, permeados de tempo bom e intempéries. Parabenizo-a, nesta oportunidade e lhe ofereço, com o carinho de sempre, que ela bem conhece e se faz merecedora, os meus bolinhos de chuva.



Escrito por Clerzinha às 06h04
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