Blog da Clerzinha


Uma Mão Lava a Outra

Dezenas de vezes, durante toda a minha vida, ouvi e pronunciei essa frase! Não me recordo quando foi a primeira, mas tenho absoluta certeza da última vez que ela me veio à mente, aos lábios e aos ouvidos: foi há poucos minutos atrás, na padaria, quando a balconista ajudou-me a segurar o pacote e pagar as compras, até que eu conseguisse colocar na carteira o troco, utilizando-me apenas da mão esquerda, vez que tenho imobilizado o braço direito e, conseqüentemente, a mão que lhe corresponde. No momento em que, entre as curtas frases que trocamos, em tom amistoso e meio conformista, repeti o conhecido provérbio, tenho absoluta certeza do que eu estava querendo expressar, porém não sou capaz de precisar como aquela funcionária apreendeu minha fala – se é que apreendeu -, pois as palavras, além do vernáculo, possuem sentido idiossincrático, isto é, sua interpretação está sempre vinculada à maneira de ver, sentir e reagir das pessoas que as pronunciam ou captam. È provável que a moça possa ter acatado minha frase como um agradecimento a ela, em razão de sua solicitude, um significado de cunho social, ligado ao sentimento de cooperatividade. Dentro dessa linha, ainda poderia citar diferentes significações, mas acontece que não tenho intenção de fazer análise de um dito popular – não me atreveria a tanto, pois sou leiga em matéria de Sociologia, Antropologia ou Lingüística – e, sim, revelar detalhes de minha subjetividade frente aos acontecimentos do dia-a-dia, única razão que me motiva a tornar viável este Blog. E, nesse âmbito restrito da intimidade pessoal, o que eu disse de forma leve e espontânea, tem a ver, ao mesmo tempo, tanto com o sintoma psicológico da incapacidade física temporária com o qual estou sendo obrigada a conviver, como também com minha busca incessante de auto-aprendizado.

Aproveito esta oportunidade que a vida me está oferecendo, para entrar em contato direto, sem subterfúgios, com alguns limites físicos que a situação me impõe e, ao mesmo tempo, vou testando minha atual capacidade de adaptação às novas circunstâncias. Literalmente e mais, ao vivo e em cores, concluo: nem sempre, uma mão pode lavar a outra; às vezes, uma delas tem de se contentar apenas em SE lavar e a outra, em aguardar... Enquanto uma aprende - utilizando todos os seus talentos para si e também para se tornar apta ao enfrentamento de uma nova dinâmica imposta pela realidade - a outra, que sempre esteve a seu lado, auxiliando-a, desde a concepção no ventre materno, tem de se contentar em assistir passivamente às desajeitadas ações desse novo aprendizado, numa fase em que a espera é a chave para o retorno à normalidade... Eu e minhas metáforas!

Todas as pessoas, num ou n'outro momento de suas existências, se utilizam de metáforas para atingirem alvos perseguidos, seja de forma consciente ou inconsciente. A definição da palavra, segundo o dicionário, não é tão simples, no entanto, na prática, ela faz parte da nossa comunicação, principalmente quando pretendemos utilizar um termo no lugar de outro, cujo significado nos possa parecer inconveniente em determinadas situações...

Do ponto de vista psicoterapêutico - que é a “minha praia” - as metáforas (conscientes, inventadas) podem funcionar como ferramentas importantes para a criação de novas fantasias (saudáveis) que, ao serem colocadas no lugar das antigas (doentias), sempre acabam propiciando algum tipo de mudança a uma pessoa carente - de saúde mental, auto-conhecimento, ou até mesmo, quem sabe, auto-realização. Por outro lado, em se tratando de manifestações inconscientes, a busca de solução para os problemas dessa natureza pode ser revelada também a partir da análise dos sintomas de determinadas doenças - sejam elas de ordem física ou psíquica - que uma pessoa apresenta. A linguagem desses sintomas é avaliada como sendo uma metáfora que faz parte da comunicação não verbal da pessoa doente, na tentativa de encontrar saída para a resolução de seu(s) conflito(s) interno(s).

Depois do breve arrazoado sobre algo do que ainda conservo retido e bem conservado na memória - saberes adquiridos antes, durante e após cursar a Faculdade de Psicologia - resta-me retornar ao início do texto, para cumprir meu propósito de ME desvelar para o mundo virtual, ao mesmo tempo em que, aos poucos, ME vou descobrindo, numa fase de vida em que “todas as fotos de minha existência já foram batidas”, só me restando a tarefa de sua revelação. Minha auto-análise é lenta, mais por conta dos impedimentos técnicos da analista, do que pelo temor do retorno do reprimido, por parte da analisanda... A metáfora inconsciente da quebra de braço é real, pois posso comprová-la com documento hábil: utilizei esse termo de forma inadequada, quando redigi o texto História de Indios, publicado dias antes de me acidentar, sendo que pretendia dizer queda de braço (entre culturas). Ainda não fui capaz de decifrar satisfatoriamente esse ato falho... Então, para ME compensar, incorporo plenamente a terapeuta – no sentido de curadora – que habita dentro de mim, desde a infância (ela nem se preocupa muito com o aperfeiçoamento técnico que a formação lhe propiciou) e vou construindo MINHAS metáforas... Elas me confortam, me consolam e me ensinam coisas por demais necessárias nesta etapa transitória de ansiedades, algumas dores, muitos transtornos e rápida evolução. E a analogia, irmã gêmea da metáfora, me aponta para a observação inusitada de um braço e uma mão - tida como "boba", só teria servido para receber a aliança do casamento - que hoje estão conseguindo, entre outras tantas ações utilitárias, digitar, já com alguma ligeireza. As palavras superlotam minha mente, sempre em busca de troca, a qual se torna impossível fora da comunicação. Hoje, novamente, eu estou bem! 



Escrito por Clerzinha às 16h15
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