Blog da Clerzinha


Histórias de Indio

Em antigo documentário sobre o Xingu, Orlando Vilas Boas relata com detalhes sua maravilhosa aventura junto aos silvícolas brasileiros, histórias de uma vida que todos os habitantes deste país deveriam conhecer. Entre tantas situações interessantes, três delas me tocaram e encantaram profundamente, motivo pelo qual desejo vê-las registradas neste meu rascunho de prosa:

Certa vez, na aldeia, apareceu um vizinho "do estrangeiro", interessado em conhecê-la melhor. Três índios apontados pelo sertanista lhe mostraram toda a região. Satisfeito com o que vira e, ao mesmo tempo agradecido pela hospitalidade, no momento de se despedir, o homem decidiu presentear seus cicerones. Como não se havia prevenido, sem portar qualquer objeto especial que lhe pudesse servir de regalo (adoro o termo, no sentido que lhe dão os portenhos), retirou do bolso um sabonete, dividiu-o em três pedaços, dando um a cada seu acompanhante. Em seguida, solicitou-lhes de presente uma flecha, para levá-la como lembrança daquela gente hospitaleira. Um dos índios pegou a flecha, quebrou-a, separando-a em duas partes desiguais, ficando com uma delas - a menor - dando a maior ao visitante...

De outra feita, conta Vilas Boas, que se encontrava ao lado de uma índia, a qual moldava barro para a fabricação de utensílios domésticos em miniatura, como tigelas e panelas, de diversos formatos - aves, insetos, além de outros animais - tudo sendo feito com esmero e perfeição de detalhes, quando, de repente, percebeu que uma criança, ainda muito pequena, filha da artesã, ia pegando um a um aqueles objetos prontos e os destruía. Após a terceira repetição, Orlando, curioso, questionou a mulher sobre o comportamento da pequenina, ao que ela lhe respondeu, com a maior naturalidade, que a criança "precisava fazer aquilo". Ele, não satisfeito com a resposta e sempre buscando compreender, insistiu, argumentando o seguinte: uma vez que as panelinhas serão destruídas, porque, então, não fazer "qualquer coisa", sem a necessidade de (perder tempo) tantos detalhes trabalhosos (alças, asas, biquinhos, etc.)? A índia-mãe, simplesmente reforçou-lhe que a menina tinha necessidade de destruir "aquelas panelinhas", não outras... Após exterminar onze peças, todas esculpidas com igual desvelo, a criança se afastou, indo juntar-se a outras, que brincavam em local próximo, enquanto a mãe calmamente dava continuidade à execução de seu delicado trabalho...

Num terceiro momento, relata o sertanista que estava sentado, ao lado de um índio e seu filho, um menino de aproximadamente oito anos de idade. A conversa parecia animada e interessante, quando o pai lhe disse que precisava sair para beber água. Vilas Boas questionou-o sobre a possibilidade de pedir à criança que lhe trouxesse a água, vez que estava ali sem ocupação. Respondeu-lhe simplesmente o índio, que não sabia se o filho desejava fazer aquilo e, decidido, saiu, indo cumprir seu intento. Insatisfeito em relação à sua própria curiosidade, o estudioso aproximou-se do menino e lhe perguntou se ele traria a água, caso o pai lhe tivesse feito o pedido, ao que o indiozinho prontamente lhe respondeu: - Sim!

Não me sinto capaz de exprimir meu encantamento em relação a tais relatos, um enlevo que se potencializa, quando me vêm à memória a figura e o tom do narrador, imagens e sons impossíveis de serem transportados para a minha própria narrativa.

Deparo-me com inúmeros questionamentos, inclusive os que me remetem aos conflitos e às tragédias relacionadas aos processos de colonização. Na quebra de braço entre culturas, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco... Nossos "selvagens" nos dão belos exemplos de convivência harmônica entre diferentes gerações; de respeito mútuo e incondicional à criança, aos velhos, à família e à comunidade. Ensinações valiosas acabam se perdendo e o encanto só consegue sobreviver através desse tipo de narrativa, documentos que, felizmente, alguém ainda está sendo capaz de preservar. Lamento o fato de que poucos demonstrem interesse e outros tantos - sempre muito poucos - tenham acesso a tais ensinamentos. Eles costumam ficar escondidos, dentro de fitas cassete, ou DVD, num acervo qualquer de entidade sem fins lucrativos, enquanto a televisão nos satura diariamente - dezenas de vezes ao dia - ao vivo e em cores, com cenas mais que chocantes de pais "civilizados" que jogam seus filhos pelas janelas de seus apartamentos.

Em meio à desolação provocada pelos atos desumanos com os quais sou obrigada a conviver na cidade, busco guarida na fala de um ser humano, que optou por estar junto, durante mais de quarenta anos, dos verdadeiros donos desta terra e também lutou pela sua causa. No meu entender, ele conseguiu perceber desde logo, que tinha muito a aprender, a partir desse efetivo e íntimo convívio, lições que os ditos civilizados provavelmente, ainda não foram capazes de "decorar"...



Escrito por Clerzinha às 14h45
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