Poucas Palavras
Helena Kolody - uma virtuose das letras, como a proclama uma amiga também poetisa - resumiu, em pouquíssimas palavras, o que levei mais de cinqüenta anos para assimilar e, depois, aprender a relatar:
"Muito briguei eu comigo,
tive raiva,
me insultei.
E, de incontido desgosto,
em meu próprio ombro chorei."
No teatro da vida, os anos "idos e vividos" (só para lembrar meu ídolo Machado de Assis), vêm-me permitindo assistir o espetáculo da evolução de minha personalidade, o qual aconteceu de maneira lenta e natural, durante os dois primeiros atos, e de modo veloz - aos trancos e barrancos, como se costuma dizer, em linguagem popular - após o intervalo principal, que representou o divisor de águas de meu existir neste mundo. O terceiro ato começou, sem que eu tivesse percebido. Ele está sendo encenado, preciso dar-lhe toda a minha atenção, pois não tenho certeza alguma da existência do quarto...
Quando sou convidada a subir ao palco, a fim de representar, sinto-me segura e convicta durante minha atuação. Conheço minhas incapacidades, tanto quanto as aptidões. Não conto com "memória", para interpretar textos decorados mas, em contrapartida, dou mostras de que sei improvisar. Sou também capaz de acumular funções, como por exemplo, a de diretora e a de intérprete, além de ser resignada e humilde o suficiente para me contentar com pequenos papéis. Meu foco é a grandeza do espetáculo, se puder contribuir para que essa meta seja alcançada, vou considerar-me uma estrela, não mais mera atriz. Sei conviver, sem ressentimentos, com a falta de aplausos, todavia, desconheço qual reação poderei apresentar, caso tenha de me deparar, numa noite qualquer, com uma platéia vazia... As antigas auto-incriminações - e suas parentes próximas, as culpas - bem como o hábito de me fazer cobranças - falas marcantes na composição inicial de meu script - abdicaram seus espaços em favor da compreensão, que tornou muito mais leve o texto, ainda que mais volumoso. Apesar de me ter livrado delas, não me permito ser ingrata, a ponto de atirá-las para o rol dos diálogos imprestáveis com a vida. É possível que tenham sido importantes, e até mesmo necessárias, dando voz a um contexto de difícil compreensão, que precisava sobressair-se sob as luzes da ribalta...
Como espectadora, busco a primeira fila - a do "gargarejo" - para ver, ouvir e sentir bem de perto esse espetáculo que não será reprisado... Sentada nesta poltrona, olhando em todas as direções, mas sem perder o foco, constato que sou capaz de me perceber, de me sentir e, principalmente, de me ter. Já consigo não fazer alarde e permanecer calada, pois me encontro saciada o suficiente para interromper ou dar descanso às minhas buscas, nos momentos em que as comprovo malogradas... A atenção flutuante me permite observar, ao mesmo tempo, todas as performances que se apresentam no palco, bem como a minha própria, ora coadjuvando, ora antagonizando-se. Por outro lado, o registro de memórias me confere a certeza de que todos os meus pedidos (a Deus) da fase juvenil foram atendidos. Então, de posse da totalidade dos fatos e do futuro, que hoje é passado, vejo-me como pessoa capaz de identificar melhor novos sentimentos - como o de realização e o de leveza - os quais também me podem dar sustentação, a exemplo de outros tantos, que tiveram o mesmo papel em outras fases de minha vida. Quando jovem, aspirei ser alguém melhor; na maturidade, decidi ser apenas quem sou e, dessa forma, retirei o peso incômodo do ser ou não ser que pairava sobre minha cabeça... Venci a dificuldade em admitir o óbvio - ninguém é capaz de dar, a si ou ao mundo, mais do que possui - desiludi-me, sem me recriminar por me haver um dia iludido e eliminei o fascínio pelo risco. Não me livrei da dúvida - novas dúvidas -, da ansiedade, das frustrações do cotidiano e também da esperança, constatação que me sugere, no mínimo, que continuo sendo humana... E, quando vejo minha imagem, não mais necessito perguntar-me:
"Quem é essa
que me olha
de tão longe,
com olhos
que foram meus?"
(Kolody - Retrato Antigo - 1988 )
Acredito que tenha superado a autora, em matéria de auto-conhecimento, mas, como tudo na vida tem preço, paguei-o com a perda de minha inspiração poética, perdendo assim a garantia da imortalidade, que somente os verdadeiros artistas conseguem conquistar. Não sendo como ela, mulher talentosa e de poucas palavras, tento melhor valorizar o rascunho de minha vida. Creio mesmo que seja impossível passá-la a limpo, todavia, se assim fosse, conhecendo-me como me conheço, não tenho dúvidas, jamais iria prestar-me a esse trabalho: simplesmente, escreveria outro texto, ensaiaria outra peça, faria longos poemas e... contaria uma nova história...
Escrito por Clerzinha às 10h55
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