Passado, Presente e...
Minha mãe sempre costumava se utilizar de frases feitas para dar sua explicação a qualquer acontecimento, desde o mais corriqueiro, como um fuxico de vizinha, até o inusitado, como por exemplo, a morte de um parente ou amigo. Parece-me que a generalização de algum modo a confortava... Dona Iracy, de apelidos: Ceci, Cicy e até Sissi - por causa do filme da Romy Schneider - costumava dizer: - O futuro a Deus pertence! e o fazia de modo tão solene, que a proposição ainda soa forte em meus ouvidos. Acredito que, subjacente a tanta fé, havia mesmo era o desejo de não precisar tomar as rédeas de sua vida, deixando o mais complicado para Ele resolver... Bem, mas esse é assunto para uma outra oportunidade. Peço desculpas, a quem consegui atrair para esta leitura, a partir de suas primeiras palavras, porém, não escolhi falar de minha mãe e, sim, do tema cujo título enunciei. Como disse, aquele ditado ainda ecoa em todas as paredes de minha existência, é impossível acreditar-me isenta de qualquer influência em relação ao peso de seu conteúdo, por isso, deixando de lado o orgulho, me pergunto: - Que faço, a esta altura da vida, se já não posso entregar a Deus coisa tão insignificante, ou seja, um futuro encurtado, melhor dizendo, um futuro que já foi quase totalmente consumido pelo tempo? Certamente, Ele interessou-se pelo de minha mãe, porque era no mínimo longo, vez que ela lh'o ofereceu, acredito, na época do catecismo, tendo vivido oitenta e cinco anos. - Opa! olha eu aqui falando dela novamente...
Na prática e, em sã consciência, jamais ofertei a quem quer que fosse o meu futuro, até porque foi o único bem não perecível (pelo fato de ter vindo sem prazo conhecido de validade) que a vida me deu, antes mesmo de eu nascer. Agarrei-o com muita força e o protegi como pude, desde a segunda invasão que sofreu - a partir da ingerência do pediatra que me examinou e me declarou uma recém-nascida à beira da morte - até há bem pouco tempo atrás, quando comecei a me preocupar com o traço firme da finitude, que surgiu de repente na linha do horizonte... O prognóstico médico não se cumpriu, graças à minha bem desenvolvida capacidade de auto-proteção. De fato, eu havia começado muito bem.
Pretendendo falar de futuro, acabei comentando o passado e confessando uma angústia do presente. - Estarei enfrentando um paradoxo? Acredito que não. Venho admitindo que, do ponto de vista da existência, Tudo é uma coisa só; para o SER, não existe linha do tempo, uma criação da mente racional, de indiscutível e absoluta utilidade, todavia, longe de ser a única verdade...
Quando necessito de direcionamento, busco-me, inicialmente através da lógica e da didática - analiso, construo gráficos, faço esquemas, utilizo metáforas, recorro aos ensinamentos que minha razão conseguiu apreender até o presente momento - "minha razão é meu guia" - e não é que, em determinadas situações, consigo obter resultados satisfatórios? Percebo, com certo orgulho, que também sou capaz de me dar boas respostas e que já não dependo tanto da vontade alheia... Acontece, no entanto, que a questão do tempo, tal qual se me apresenta, deixa de ser puramente racional, pois a passagem dos dias, no meu sentir acelerada demais, acabou se transformando em verdadeira corrida, não mais no tempo e, sim, contra ele, uma empreitada que não consigo levar a cabo. Não encontro conhecimento formal, ciência ou filosofia que dê conta desse tipo de orientação. Necessito de sugestões diferentes das costumeiras que o mundo me tem dado, de uma novidade embasada numa outra ordem - existencial, emocional, ou espiritual - de novo alento.
Não entreguei a Deus meu futuro, fui consumindo-o aos poucos, em forma de presente, até chegar à realidade atual, já com ele bastante encolhido e afunilado... - Fazer o quê? Resolvo, então, desprezar a razão e rever aquela minha antiga faculdade de criar novas idéias - a mesma da infância, uma ferramenta esquecida num dos cantos obscuros do tempo - e eis que, sem esforço, num passe de mágica, ela vem, tal como sempre foi - direta, clara e descomplicada - sugerindo-me de imediato: - Não busque a didática, isso é coisa de mestre, gente que quer ensinar e, não, aprender... Use a semântica, ou melhor, mude a semântica, busque outro termo, encontre outro sentido!
Replico: Que será isso, afinal? Não posso trocar a palavra futuro, por qualquer outra; durante anos e anos, ouvi dizer que a linha do tempo é formada por três vocábulos inseparáveis: passado, presente e futuro, não vai dar certo! Ela, a imaginação, desde os primórdios de minha vida, sempre foi a dona da trépica, fato incontestável para mim... Aguardo pacientemente seu pronunciamento, que então me chega luminoso e confortante:
- Você pode, sim, escolher o que quiser e, a partir dessa escolha, transformar todo o conjunto: basta que seja firme ao pronunciar a nova palavra, tanto quanto ao pensá-la, ao senti-la e, principalmente, ao vivê-la:
Passado, Presente e ESPERNÇA!
Escrito por Clerzinha às 04h07
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