Blog da Clerzinha


Ser e Não ser Carolina

Neste ano, pelo fato da coincidência entre datas: sábado, dia de publicar novo texto no blog e, sábado, 08 de março, Dia Internacional da Mulher, sinto-me levemente pressionada a fazer comentário vinculado ao assunto, mais pela provocação ao prazer de contar minhas intimidades, do que motivada por qualquer sentimento ligado à defesa dos direitos das mulheres, menos ainda, pela exacerbação de um feminismo tardio... Sou mulher, fiz e continuo fazendo tudo o que as representantes de minha geração fizeram ou pretenderam fazer e, se acreditasse na possibilidade de morrer e voltar a viver, gostaria de vir-a-ser novamente mulher. Sinto-me privilegiada pela natureza, só pelo fato de pertencer ao sexo feminino, apesar de ter consciência de meus limites, que não são poucos, bem o sei.

Quando tinha dezesseis anos de idade e cursava o primeiro ano do científico (equivalente ao colegial, segundo grau, ou coisa que o valha), adorava as aulas de Literatura, nas quais estavam incluídas noções básicas de Métrica. Lembro-me até da letra da professora, colocando no quadro negro um soneto, o único que fui capaz de decorar e jamais esquecer, mesmo após quatro décadas de vida. Aprendi logo, tudo o que me foi ensinado do ponto de vista técnico - quatorze versos, dois quartetos, dois tercetos, etc. - mas acredito que tenha apreendido muito mais... Entre tantas outras coisas que poderia comentar neste espaço, seleciono sublinhar o fenômeno psíquico de minha introjeção, a partir do que pude captar como símbolo do amor ideal de um homem em relação a uma mulher. Mesmo não tendo ficado imune às pressões hormonais da fase juvenil - submissão à beleza e força físicas masculinas - bem lá no fundo de minha alma, abriguei pequenas sementes de outros sentimentos - mais nobres, talvez, segundo visão romântica ou amadurecida - a admiração, o companheirismo, a gratidão e a amizade, tudo, no lugar da paixão, que pode satisfazer por um período, mas não é capaz de sobreviver por muito tempo, menos ainda à morte. Não estou falando de Romeu e Julieta - nem sei se aquele amor adolescente foi verdadeiro, há controvérsias... - assim como de nenhuma outra história real de amor, do tipo "até que a morte os separe", que tenha sido fartamente explorada pela mídia. Trata-se de uma relação amorosa, que ainda não se mostrou suficientemente interessante para algum cineasta desejar transformá-la em filme de bom gosto. Estou falando, simplesmente, da maior, melhor e mais bem fundamentada declaração de amor que pude conhecer até esta data; uma realidade poética que me emocionou na juventude, incorporou-se à minha fantasia inconsciente, ficou hibernando por longos anos em meus arquivos remotos e, nesta semana, de repente, explodiu, saindo diretamente da memória emotiva para a tela do computador, quiçá com alguns erros, pelo fato de eu não poder contar, neste momento, com livro, manual literário, ou outro instrumento semelhante para transcrevê-la com total fidedignidade. É provável que, na construção de meu modelo feminino, eu tenha recebido algum tipo de influência, do que consegui captar em relação ao comportamento dessa mulher à moda antiga: eterna companheira, capaz de se colocar no mesmo patamar do marido, porém, apenas no sentido de sua real contribuição para o desenvolvimnto de uma carreira brilhante e compensatória. Segundo minha imaginação femínea, ela se transformou verdadeiramente em objeto - de conformidade com os padrões vigentes de sua época - mas, ainda como tal - objeto de reconhecimento e de adoração - passou a ser eternamente reverenciada pelo seu homem e todos os seus fiéis "devotos": À Carolina

Querida, aos pés do leito derradeiro,

Em que descansas desta longa vida,

Aqui venho e virei, pobre querida,

Trazer-te o coração de companheiro.

 

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro

Que, a despeito de toda a humana lida,

Fez a nossa existência apetecida

E num recanto pôs um mundo inteiro.

 

Trago-te flores, restos arrancados

Da terra que nos viu passar unidos

E ora mortos nos deixa e separados 

Que eu, se tenho nos olhos malferidos,

Pensamentos de vida formulados,

São pensamentos idos e vividos"

Machado de Assis é, no meu entender, o mais "santo dos santos" de meu templo literário. Se eu tivesse nascido no século XIX, certamente teria desejado ser Carolina, para compartilhar de seu altar. Nasci no século XX, inconscientemente desejei ser como Carolina e já tive a oportunidade de ter um poema só para mim, mas isso são águas passadas... Estou vivendo no século XXI, não consegui chegar perto do que é ser Carolina, todavia, me resta uma esperança, porque, para ser realmente Carolina, não basta apenas viver...   



Escrito por Clerzinha às 14h31
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