Sol Demais
O verão do litoral limita meu espaço de atividade física ao ar livre. - Na minha idade, sol? Apenas quinze minutos diários, antes das dez horas! Acontece que este corpo, há muito tempo, vem contando com minha colaboração espontânea, não apenas no sentido de sua boa conservação, mas também no de equalizar consumo e gasto de energia. Até a minha terceira década de vida, ele tinha pouca representatividade para mim - havia e acontecia em função do(s) outro(s), resumindo: sociedade, trabalho e família. Aos trinta e dois anos, aproximadamente, não por vaidade, mas devido a questões ligadas à saúde, fui obrigada a lhe dar importância e, assim, passei da inconsciência à consciência corporal - "sinto, logo existo!" - que levou anos para se completar... Aos poucos, comecei a freqüentar lugares arborizados, parques, clubes e, na seqüência, academias de ginástica e até aulas de natação. Durante tempo considerável, pratiquei o "velho Cooper" que, a partir de 1998, foi definitivamente substituído pela caminhada. Dela me tornei dependente e, nesta nova fase de vida - a velhice - o que era lazer, passou a ser dever.
Nos momentos em que os verbos envelhecer e adoecer forçam conjugação na minha pessoa, de modo sistemático, tento também tornar úteis as "boas" informações captadas no plano mental, para auxiliar o físico, sob todos os pontos de vista - estrutural, funcional, metabólico, neuronal e tudo mais que a Fisiologia Humana determinar - sem olvido do plano emocional, esse motor que funciona muitas vezes até sem combustível... Se depender do meu esforço, o triângulo ou trindade - corpo, mente, emoção - terá de manter sua inteireza, preferivelmente até sempre.
Sou a única responsável pela manutenção deste meu melhor patrimônio, não me posso deixar dominar pela acomodação, tenho de diligenciar e um quarto de hora lá fora é tempo insuficiente para que eu consiga colocar em dia meu treinamento físico, além do que, saindo à rua, vejo gente e amplio a consciência sobre o viver - tarefa árdua, porém diletante - que também me propus realizar de alguns anos para cá. Durante o verão, brigo com o sol, porque encontro dificuldade para enfrentar sua luminosidade e seu calor causticantes, que não dão trégua até o anoitecer. E... quando o astro rei busca o ocaso, vou-me acomodando, a exemplo de Chapeuzinho Vermelho: recolho-me "à tardinha, ao sol poente, junto à mamãezinha". Identifico-me com essa personagem, talvez pelo fato de me lembrar que, durante quase toda a infância, minha mãe me colocava na cama para dormir, antes mesmo do anoitecer e eu não tinha outra alternativa, a não ser buscar o sono que, muitas vezes, em razão de ter sido forçado, durava pouco, terminando no início da madrugada propriamente dita. Ao acordar, eu acreditava que já era outro dia, então, inocentemente, "dava-lhe o troco", interrompendo seu merecido descanso, com a pergunta: - Mãe, hoje já é amanhã?
Também não posso negar o quanto a luz natural me obriga a enxergar com nitidez e maior veracidade a vida que pulsa ao meu redor: brilho demais, ofusca-me os olhos; calor demais, ferve o meu sangue; vento demais, me derruba e chuvas demais me encarceram em casa. Ao longe, todos os dias, vejo pequenas e grandes ilhas - verdes montes, sempre no mesmo lugar, parados à minha espera... - Ah, como gostaria de alcançá-los, não apenas com o olhar, como tem sido possível, mas com o tato, a audição, o olfato e até o paladar... O oceano entre nós é uma barreira real, enorme barreira, que ora me amedronta, ora apenas me inibe. Se eu tivesse um barco, ao menos uma pequena canoa, arriscar-me-ia a ir até lá...
Fico, então, com o sol, confortavelmente instalada à sombra de meu teto acolhedor, com vista para o mar. Este, sempre me parece calmo - não estamos tão próximos assim - mas às vezes percebo que entra em conflito com o vento - ou será que é o vento que o invade, sem lhe pedir licença? - e, nessas ocasiões, me recolho, sem me encolher, pois estou aprendendo a conviver melhor com as nossas intempéries - as de dentro, as de fora - eu e ela - a natureza - ambas, partes do mesmo Todo, cada qual em seu devido lugar...
Escrito por Clerzinha às 05h01
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