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Blog da Clerzinha
 


Massarocas

Neste relato, a criança de ontem e a velha de hoje são a mesma pessoa. Mais de meio século separam os hábitos de uma e de outra para a satisfação da mesma necessidade – a da sensação básica do tato – atualmente tida como estímulo vital para a sobrevivência, a exemplo de outras tantas, como as necessidades de oxigênio, de líquido, de comida, de descanso, de eliminação vesical, intestinal, etc. Imprescindível, desde o nascimento – para garantir confiança a um organismo que almeja desenvolver-se – até a velhice – para a validação de uma longa sobrevida – o tato, classificado como um “sentido de proximidade”, possui parcela significativa de responsabilidade sobre o comportamento, uma vez que também é considerado linguagem, pois comunica afetos e envolvimentos fundamentais aos relacionamentos humanos. Tocar é um verbo que precisa ser conjugado na voz passiva, do nascimento à morte – ser tocado – para justificar a nossa verdadeira missão de viver e sentir a vida, esse é o postulado que entra em confronto com todas as minhas decepções frente à impessoalidade do mundo moderno.

Disse-me minha mãe que fui amamentada até bem crescidinha e que, pelo fato de havermos residido numa cidade quente do litoral, durante os meus primeiros cinco anos de vida, ela chegava a me dar quatro banhos diariamente. Tenho absoluta certeza de que jamais refletiu sobre a importância da estimulação tátil na infância, mas preciso admitir que acertou na mosca – como se costuma dizer – quando, motivada pelos preceitos da boa higiene, usou seu toque maternal numa proporção maior do que a das simples e esporádicas carícias que uma dona de casa poderia oferecer a seus filhos naquela época... E, quando minhas necessidades de toque não mais estavam sendo devidamente satisfeitas, consegui encontrar num chumaço de algodão branco, macio e renovável, que chamava de massaroca, a solução ideal para supri-las. Com aquele “objeto intermediário”, tão inusitado quanto descartável, costumava me acariciar e também as pessoas mais próximas. Sempre exigia a renovação diária do algodão, para preservar-lhe a leveza e maciez, com a delicadeza de carinho direcionado à textura de uma pele infantil. É provável que tais afagos, praticados geralmente antes do adormecer e logo após o despertar diário, me tenham garantido a prontidão de um sistema sensorial permanente, assim como a oferta de um passaporte adequado para que eu pudesse adentrar, com alguma desenvoltura, no mundo das sensações, especialmente as eróticas, em minha fase reprodutiva de vida.

Sinto-me agraciada com esse legado saudável de minha infância, que vem compensando outros tantos, nem tão saudáveis assim... As imagens que colecionei, repletas de sentido háptico - (o tato em nível mental) - vêm-me possibilitando ressignificar a velhice em termos de pele, atitude que supera qualquer possível desalento em relação à carência dos “toques de amor”. As massarocas de ontem transformaram-se em chumaços de graça e ternura – meus netos, especialmente nesta fase, as netinhas, que são ainda pouco mais que bebês – com a vantagem de que são massarocas que se expressam e, mais ainda, através da linguagem não verbal, repleta de mensagens táteis, as quais estão sempre à altura de minhas necessidades de consumo afetivo.

Não sei se, em algum ponto obscuro dos dias futuros que me esperam, chegarei ao nível de solidão de Donna Swanson, autora que apresentei na publicação anterior. Quando li pela primeira vez seu poema – muito antes de haver atingido a velhice – tive crise convulsiva de choro, porém não consegui atinar o verdadeiro motivo daquela reação exagerada. Talvez ele esteja bem guardado nas dobras do meu inconsciente, algumas das quais faço nenhum esforço para explorar...

Quando eu tinha dezoito anos – lembro-me bem, foi por ocasião de uma viagem do interior para a capital – vi um casal de idosos – praticamente anciãos, de acordo com os padrões daquela época – estavam de mãos dadas e sentados na poltrona à minha frente. Durante todo o trajeto, não tirei os olhos daqueles dois, sentia-me quase hipnotizada com as singelas cenas de carinho, no meu entender, as mais românticas que havia presenciado até então. O ônibus chegou ao seu destino e os velhinhos permaneceram de braços entrelaçados por mais alguns minutos; não tinham pressa de sair de seus lugares... Tive ímpeto de abordá-los, para beijar aquelas quatro mãos abençoadas, que ainda eram capazes de transmitir amor. Não o fiz, porém, temendo ser mal interpretada. Contive-me e me restringi a fotografar na memória a bela cena, que conservo nítida até hoje. Quiçá ela ainda possa transformar-se em esperança, para o registro das imagens finais do meu álbum de fotos... Esperança! para mim, sinônimo de futuro. Só me resta aguardá-la e por ela me deixar acariciar...




Escrito por Clerzinha às 12h11
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Breves e Leves Reflexões...

Parte II - O Toque 

O poema de Donna Swanson, abaixo transcrito, foi considerado a expressão mais eloqüente da necessidade do "toque do amor" na velhice. ( Fiz questão de colocar original e tradução - de acordo com a referência bibliográfica assinalada - como uma homenagem aos leitores que residem acima da linha do Equador e que muito me honram com suas presenças neste blog).

Comovam-se, mas não deixem de refletir:         

 

Minnie Remembers

"God,

My hands are old.

I’ve never said that out loud before

But they are.

I was so proud of them once.

They were soft

Like the velvet smoothness of a firm, ripe peach.

Now the softness is more like worn-out sheets or withered leaves.

When did these slender, graceful hands become gnarled, shrunken claws?

When, God?

They lie here in my lap,

naked reminders of this worn-out

body that has served me too well!

How long has it been since someone touched me

Twenty years?

Twenty years I’ve been a window.

Respected.

Smiled at.

But never touched.

Never held so close that loneliness

Was blotted out.

I remember how my mother used to hold me,

God.

When Y was hurt in spirit or flesh,

she would gather me close,

stroke my silky hair

and caress my back with her warm hands.

O God, I’m so lonely!

I remember the first boy who ever kissed me.

We were both so new at that!

The taste of young lips and popcorn,

the feeling inside of mysteries to come.

I remember Hank and the babies.

How else can I remember them but together?

Out of the fumbling, awkward attempts of new overs came the babies.

And as they grew, so did our love.

And, God, Hank didn’t seem to mind

if my body thickened and faded a little.

He still loved it. And touched it.

And we didn’t mind if were no longer beautiful.

And the children hugged me a lot.

O God, I’m lonely!

God, why didn’t we raise the kids to be silly

nd affectionate as well as dignified and proper?

You see, they do their duty.

They drive up in their fine cars;

they come to my room to pay their respects.

They chatter brightly, and reminisce.

But they don’t touch me.

They call me "Mom or Mother’ or "Grandma’.

Never Minnie,

My mother called me Minnie.

So did my friends,

Hank called me Minnie, too,

But the’re gone.

And so is Minnie.

Only Grandma is here,

And God! She’s lonely"

(Donna Swanson)

Extraído de Images, Women in Transition, compilado por Janice Grana, Winona, Minnesota, St. Mary’s College Press, 1977:

Deus,

Minhas mãos estão velhas.

Nunca disse isso antes em voz alta

Mas estão.

Antes eu sentia tanto orgulho delas.

Eram macias

Como a maciez aveludada de um pêssego firme e maduro.

Sua maciez agora é mais como a dos lençóis velhos

Ou das folhas murchas.

Quando foi que mãos esguias e graciosas como aquelas

Tornaram-se estas garras encolhidas e recurvadas?

Quando, Deus?

Aqui pousam elas em meu colo,

Lembranças cruas deste desgastado corpo que me serviu tão bem!

Quanto tempo faz desde a última vez em que alguém me tocou?

Vinte anos?

Há vinte anos sou viúva.

Respeitada.

Objeto de sorrisos.

Nunca porém tocada.

Nunca trazida para tão perto que a solidão se dissipasse.

Lembro do modo como minha mãe costumava me segurar,

Deus.

Quando estava com minha carne ou meu espírito doendo,

Ela me puxava para muito perto de si,

Alisava meu cabelo sedoso,

E acariciava-me nas costas, com o calor de suas mãos.

Oh, Deus, estou tão só!

Lembro-me do primeiro rapaz que me beijou.

Éramos os dois tão inexperientes!

Sabor de lábios juvenis e pipoca,

Sensação íntima de mistérios por virem.

Lembro-me de Hank e dos bebês.

De que outro jeito posso lembrar-me deles senão juntos?

Das desajeitadas e ávidas tentativas de

Amantes novos brotaram os bebês.

E conforme cresciam, crescia nosso amor.

E, Deus, Hank parecia não se importar

Que meu corpo tivesse perdido um pouco de seu brilho e elasticidade.

Ele ainda o amava.

E o tocava.

E não nos importávamos por não estarmos mais tão lindos.

E as crianças abraçavam-me tanto.

Oh, Deus, estou sozinha.

Deus, por que não criamos as crianças para serem tolas

E afetuosas assim como dignas e adequadas?

Sabe, elas fazem o que devem.

Dirigem seus belos carros,

Vêm até meu quarto em sinal de respeito.

Sua conversa é animada, recordam-se

Mas não me tocam.

Chamam-me "Mamãe", "Mãe" ou "Vovó"

Minnie, jamais.

Minha mãe chamava-me Minnie.

Meus amigos também.

Hank me chamava também de Minnie.

Estes porém já se foram.

Como Minnie, que se foi.

Só Vovó restou,

Deus!

E como ela está só!

Montagu, Ashley (1905), Tocar: O Significado Humano da Pele/ Summus (SP), 1988.



Escrito por Clerzinha às 21h01
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Sem Tempo

O presente que se ignora, vale o futuro - é o que afirma Machado de Assis, em um de seus mais famosos contos - A Cartomante.

O descaso em relação ao presente, a meu ver, poderá ter implicações gravíssimas, em termos de qualidade de vida (e, por que não, de morte?), no futuro de qualquer indivíduo que se mantenha saudável até a última fase do ciclo vital, ou seja, a velhice.

Como a maioria das pessoas que conheço, principalmente as pertencentes à minha faixa etária, fui condicionada, desde criança, a nunca deixar de “agir corretamente” e a buscar perfeição, em termos comportamentais, no sentido de atender às exigências desta nossa sociedade. Aprendi, desde cedo, que deveria agradar a todos - sendo, principalmente, obediente, cordata e uma porção de outros adjetivos, sempre cuidadosamente colocados no feminino - e que a maior satisfação que eu poderia almejar seria a de constatar a aceitação dos outros em relação ao meu proceder. Em meio a tantos aprendizados, fui adquirindo capacidade invejável, não apenas para abrir mão da maioria de minhas demandas individuais e internas, mas também para postergar prazeres simples, como por exemplo, aqueles relacionados à experimentação e vivência do Aqui e Agora. Imaginei que minhas pequenas renúncias do dia-a-dia se somariam tal qual cifras em uma caderneta de poupança e que, ao final, a recompensa viria, em forma de polpudo saldo credor, para ser consumido sem culpa, a meu bel prazer, a partir de um dia qualquer do futuro... Os dados da minha contabilidade existencial apontam um irrecuperável desfalque na coleção de bons momentos, mas ainda assim, na coluna dos lucros, o percentual atribuído às minhas pequenas transgressões foi maior, em termos de “grandes” prazeres -os da infância, os da juventude e até mesmo os da vida adulta - e, por conta desse resultado parcial, os números do balanço geral ainda não estão no vermelho... Tal constatação, somada ao fato de eu estar tendo tempo suficiente para desaprender e me desvencilhar do que não foi e jamais será bom para mim, me confere um sentimento de gratidão pela vida - o mesmo que o autor deste poema, provavelmente, não deve ter sido capaz de conhecer, até o momento em que resolveu brindar-nos com esta triste e bela confissão:

Se eu pudesse viver novamente minha vida,

na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais,

seria mais tolo ainda do que tenho sido.

Na verdade, acho que bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiênico.

Correria mais riscos, viajaria mais,

contemplaria mais entardeceres, subiria mais

montanhas e nadaria mais em rios.

Iria a mais lugares, lugares que nunca fui,

tomaria mais sorvete e comeria menos

lentilha, teria mais problemas reais e menos

problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e

produtivamente cada minuto da sua vida.

Claro que tive momentos de alegria.

Mas, se eu pudesse voltar a viver, trataria de ter

somente bons momentos.

Porque, se vocês não sabem, disso é feita a vida, só de

pequenos momentos. Não percas por favor o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma

sem um termômetro, uma bolsa de água quente,

um guarda-chuva e um pára-quedas.

Se eu voltasse a viver, eu viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar

descalço no começo da primavera e continuaria

assim, até ao final do outono.

Eu daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais

amanheceres e brincaria com mais crianças, se eu

tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas, já viram, eu tenho 85 anos e eu sei que estou morrendo...

(Jorge Luiz Borges)

Pelo fato de haver confiado demasiadamente no futuro, delegando-lhe todas as recompensas por seu bom desempenho no passado - formado em grande parte de presentes perdidos - o poeta precisou apoiar-se na ilusão do SE, onde uma outra vida teria a incumbência de acontecer para ratificar a validade de sua existência. Louvável poema, para uma lamentável realidade!



Escrito por Clerzinha às 20h17
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Breves e Leves Reflexões Sobre a Velhice

Parte I - O Tempo

Uma causa evidente desta vida solitária que levo, reside na total falta de interesse pelas atividades colocadas à minha disposição - através dos chamados Centros de Convivência Para a Terceira Idade e de alguns projetos propostos por outras instâncias da sociedade local - pelo fato de não conseguir vislumbrar oportunidades concretas de vivenciar, em qualquer posição que me coloque, uma Velhice Bem Sucedida. Não entrarei em detalhes sobre a qualidade das propostas dessas instituições - em termos de manutenção da saúde mental, atualização de conhecimentos, educação continuada, desenvolvimento de novas e antigas habilidades - para incentivar e facilitar ao idoso uma participação social ativa, pelo fato de que, aqui e agora, tenho de me contentar em ser simplesmente público alvo... A mudança repentina de fase de ciclo vital - da adultez para a senescência (como querem alguns autores) - bem como a de status profissional - da vida profissional ativa para a aposentadoria (quase compulsória...) - não me servem de justificativa para aderir a qualquer tipo de passividade existencial ou intelectual, um comportamento comum, que costumo detectar na maioria de meus companheiros de faixa etária, e que, para ser franca, muito me incomoda. Na mesma proporção, também observo, estampado em alguns semblantes - independentemente da quantidade de rugas - um sentimento de descaso para com a maturidade, que acabou caindo na malha fina das redes do senso comum, transformando-se em sua principal vítima. Pelo fato de ser alvo de uma diversidade de expectativas - por exemplo, as relacionadas ao mercado, compra e venda de produtos anti-envelhecimento - e de concepções - só para lembrar o jargão: "a idade do condor" - o preconceito em relação ao binômio velho/envelhecer, a cada dia, fica mais e mais reforçado. Homens e mulheres, sem relevância de nível sociocultural e de ocupação, apresentam crenças e posturas negativas frente à velhice; trata-se de uma verdadeira fobia generalizada. Lamento duplamente: como sexagenária que sou e profissional da área da Gerontologia que fui.

Para amenizar um pouco a frustração pela qual me vejo invadida em momentos como este - onde tais verdades ficam consignadas até mesmo na tela do computador - dou-me o direito de declarar publicamente, através desta mesma tela e em letras garrafais - que simbolizam o meu grito digital - o seguinte : 

SOU VELHA POR CONVICÇÃO; ESTOU SOZINHA POR FORÇA DAS CIRCUNSTÂNCIAS E VIVO SOLITÁRIA POR OPÇÃO 

As duas últimas situações, a qualquer momento, poderão ser alteradas, ao embalo da vida, no entanto, faço votos de que a primeira - em razão desse mesmo embalo - jamais chegue a sofrer mudança semântica significativa, pois sinto que, de verdade, engatei na velhice! Posso resgatar com serenidade tudo de bom que amealhei durante décadas, cuidando para que nada escoe como água por entre os dedos, e com a certeza de que saberei viver com leveza o porvir.

Admito, sim, que um velho possa deixar de ser velho - provavelmente quando decidir fixar residência no País das Ilusões, um lugar que conheço de sobejo e ao qual pretendo jamais retornar - e que, de maneira inusitada, também seja capaz de retornar à obscuridade do infantilismo - como, por exemplo, através da degeneração, especialmente a mental - todavia, faço questão de sublinhar: o incapaz não é velho, é apenas incapaz; o velho o será, única e exclusivamente por conta do destino, vez que pode fazer a opção de ser apenas velho...

Estudos de cá, preconceitos de lá, ilusões acolá... Fato concreto é que o Tempo continua sendo, indiscutivelmente, o maior patrimônio da velhice. A sabedoria, mesmo bem avaliada, jamais lhe tomará a primeira posição! Uma pena, pois é nela que costumo investir, ainda que sem fanatismo...

Outro dia, andando pela calçada desenhada da praia, resolvi brincar com o Tempo, só para com ele trocar de lugar e me sentir mais sua amiga, criando intimidade... Resgatando um pouco do compasso ligeiro da juventude e me deixando levar pelo ritmo da maturidade, declamei-lhe:

Bom

para o tempo, é o espaço

para o espaço, é dar tempo

para dar, é ter tempo

para ter, é sem tempo,

com espaço e no tempo

para, com tempo,

ter espaço e tempo!

Ele simplesmente me respondeu, naquele seu tom severo, que todos bem conhecem:

- Não adianta me enrolar!...

 

 

 



Escrito por Clerzinha às 09h17
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Sopa de Pedras

Conta a lenda que:

uma mulher pobre e desprevenida teve de se mudar para região que pouco conhecia onde, de repente, se viu isolada, sem recursos materiais e com fome. A noite se aproximava, o frio aumentava e o estômago doía. Aflita, mas sem se perder em meio à desolação de sua realidade, sentou-se na soleira da porta de casa e pôs-se a explorar o ambiente à sua volta, ao mesmo tempo em que mentalmente fazia rápido inventário de todos os seus pertences. Num primeiro momento, constatou: possuía ótimo fogão - provido de lenha suficiente para dois ou três dias de uso - uma grande panela, água à vontade; no quintal havia pedras, muitas pedras, de diversos formatos e tamanhos. Além de tudo isso, avistou fumaça saindo das chaminés de algumas habitações muito próximas à sua. Desse modo, conseguiu perceber que tinha companhia por perto, poderia não estar tão só o quanto supunha... Da pausa, à percepção; desta, à certeza; depois, à coragem e, a partir daí, à criação, seguida da ação: minutos após, estava a mulher batendo nas portas das residências de seus vizinhos, apresentando-se como nova moradora da aldeia e oferecendo a todos os seus préstimos. Colocava-se como boa dona de casa, cozinheira muito versátil, capaz até mesmo de fazer deliciosas sopas de pedras!

- Que lugar abençoado, dizia, vamos poder saborear juntos muita sopa de pedra, minha especialidade, pois a matéria prima temos e com fartura...

Os vizinhos, mais curiosos que generosos, lhe deram a atenção que esperava e, assim, os diálogos foram-se aquecendo, a ponto dela se ver, em poucos quartos de hora, recebendo tantas sugestões, quanto mais pertences para a confecção daquele prato inédito, que todos ansiavam por experimentar. De volta à casa, a mulher separou cuidadosamente, uma a uma, as oferendas para a sua primeira e inédita sopa... Àquela altura, a novidade culinária já podia contar com cenouras e vagens fresquinhas, batatas tenras, folhagens diversas, alguns temperos de cheiro e até, vejam só, um suculento naco de toucinho!

A noite chegou devagar, embalada pelo ritmo das pedras batendo no fundo da panela, que assentada sobre o fogo, abrigava o turbilhão líquido e colorido da mistura densa e saborosa, cujo aroma se espalhou pela cozinha, quintal, até a vizinhança. Mais tarde, sentindo-se aquecida, saciada, alimentada e muito satisfeita em razão das novas amizades que conquistara, finalmente, a mulher pôde dormir em paz...

Cada leitor dá à história um valor, um peso, uma interpretação. E as interpretações serão tantas quantas forem as leituras, a ponto de se poder dizer: A cada pessoa, uma sopa de pedra... ou, quem sabe: Cada um tem a sopa de pedra que merece...

Importante é se possuir consciência, tanto da impossibilidade de receita, como da exigência do ingrediente indispensável desse prato altamente nutritivo, ou seja, a pedra, no singular ou plural, pois ela lhe dá identidade...

Ultimamente, muito me tenho alimentado de sopa de pedras, também pela abundância de matéria prima à minha disposição... A variedade, bem como as diversas combinações, que não me permitem cair na mesmice do cardápio, acontecem em função da capacidade criativa e da valorização que costumo atribuir aos relacionamentos construídos, não apenas no meu cotidiano, mas também os que aconteceram durante o transcorrer de toda a minha vida até aqui. Por ora, sinto-me capaz de saciar-me, alimentar-me e, ao mesmo tempo, gratificar-me com o ato contínuo de produzir e poder dividir com os “vizinhos” mais próximos minhas sopas de pedra de cada dia. 



Escrito por Clerzinha às 14h27
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Provérbio Chinês

Confesso que, até há alguns minutos atrás, estava sem assunto, como se costuma dizer, para iniciar minha conversa semanal. Faltava-me o mínimo de motivação interna, no sentido de desejar comentar qualquer acontecimento externo – por exemplo, a comemoração do Dia das Mães – ou interno – meus sentimentos de mãe e de filha – pois o excesso de conotação comercial que a cada dia, mais e mais, a data vem merecendo, chega de fato a me irritar e, o que é pior, interfere nos meus interesse e prazer de estar fomentando novas demandas de auto-conhecimento, para dividi-las ou trocá-las com quem estiver interessado. Acontece que, ao tentar recolocar no armário minha agenda de 2007, que estava fora de lugar, e tendo de ajeitar alguns papéis avulsos, juntados à sua primeira página, deparo-me com a seguinte anotação:

Me ame quando eu menos merecer, pois é quando eu mais vou precisar”

(Provérbio Chinês)

Lembro-me ainda do impacto que a frase exerceu sobre mim, num primeiro momento, quando com ela tive contato, em tempo e lugar que ora não consigo precisar. Tenho a impressão de que funcionou como uma espécie de apelo emocional da minha voz interna – a que sempre trabalha a meu favor – no sentido de encontrar solução proveitosa para alguns conflitos de ordem afetiva, com os quais tive de me deparar em determinada época. Relutava em assumir a total responsabilidade sobre os meus sentimentos – positivos, ou negativos –, independentemente deles terem sido provocados (por outrem) ou invocados a partir da minha própria imaturidade, duas realidades muito diversas, que eu insistia em ignorar: se amava, era porque o outro merecia; se carregava mágoa, era porque o outro me magoara; se chorava, era porque algo ou alguém me havia feito chorar; se ria, era porque “a coisa” era engraçada e, assim por diante... uma sucessão de equívocos – onde o meu Eu sempre se encontrava “do lado de fora” - que me privou, durante mais anos que o presumido, da maravilhosa sensação de me poder sentir Eu mesma, Em mim, Para e Por mim.

Fato é que o provérbio chinês conseguiu abalar de certa forma minha estrutura afetiva de mãe e, por conta disso, estou-me dando a oportunidade de comentá-lo sem, no entanto, necessitar do manto de santa - com o qual os cristãos costumam vestir suas mães - ou ter de calçar os sapatinhos apertados das mulheres chinesas, com a intenção de me propor o estabelecimento de uma relação sensata entre a fala oriental - por mim interpretada como um grande apelo - e o amor materno, esse, tão exaustivamente glorificado, em quase todos os cantos do mundo, especialmente nesta data.

Não tenho conhecimento de mãe que, em algum momento de sua vida – antes, logo após, ou muito tempo depois do nascimento de seu filho – não se tenha deixado trair pelo Amor Condicional, ou seja, aquele sentimento tido e visto como puro, que ora sugere, ora solicita, e mesmo, nas situações periclitantes, acaba exigindo do filho algo a mais do que ele próprio é capaz de se dar ou, pior ainda, de lhe dar, como prova de gratidão, apenas pelo fato de havê-lo trazido a este mundo. No meu entender, esse é o amor que nos chega embrulhado p'rá presente e permanece o tempo todo atado à palavra merecimento, como se amor de verdade acontecesse unica e tão somente “por causa de”...

Plagiando sem qualquer escrúpulo o pensamento chinês e sem me preocupar com sua significação original, transporto-o até a minha realidade – que não deve estar distante das realidades das demais mulheres destes tempos modernos – na qual o Amor Incondicional, a mais verdadeira modalidade desse sentimento, vem encontrando sérias dificuldades para continuar sobrevivendo... Poucas pessoas se dão conta de que amar incondicionalmente significa amar “apesar de”...

Portanto, como lembrança de mais um Dia das Mães, aqui deixo gravada minha sugestão:

Mulher, ama com Amor Incondicional, aquele ou aquela que necessita chamar-te de Mãe!



Escrito por Clerzinha às 08h09
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Bolinhos de Chuva

Dia chuvoso! Desde cedinho, de tempos em tempos, vou ao terraço, olhar para o céu, na esperança de constatar alguns minutos de estiagem, a fim de que eu possa sair desta toca e, finalmente, levar a cabo minha principal atividade diária, a caminhada, da qual já me tornei dependente, tanto física, como psiquicamente. Aos poucos, vou percebendo: hoje, o dia não me favorecerá.

Qualquer tipo de dependência, no meu caso, me parece prejudicial, desde a mais comum, no âmbito da afetividade, como por exemplo, a dependência da companhia de gente querida, até a considerada mais positiva, no que se refere à manutenção da qualidade de vida, ou seja, a dependência de exercícios ou atividades físicas. Incomoda-me o fato de não me sentir totalmente livre, porém, de imediato, reconheço que liberdade total não existe e, para remediar tal incômodo, imagino que posso circunscrevê-la numa área onde eu me perceba inteiramente à vontade... - Qual seria então, dentro de mim, essa área?

Imediatamente, vem-me à mente a palavra memória. - Ah, eis uma parte minha, que de fato jamais me decepcionou! Tem também a vantagem de poder ser acessada a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer espaço ou situação em que me encontre e com a garantia de que ela não padece de um mal muito comum, neste início de século, apresentado por grande parte das pessoas próximas à minha faixa etária: o esquecimento. No presente, de minha pródiga memória venho dependendo, nem tanto para me distrair, menos ainda, para matar o tempo e, sim, imbuída sinceramente da intenção de me deleitar com o prazer das lembranças, que sempre me acodem no momento certo.

Chove lá fora, estou sozinha dentro de casa, espero ninguém, pois no meu dia-a-dia, somente eu existo. Hoje, o telefone, que já tocou uma vez, não irá mais tocar, bem o sei, nem por isso me entristeço, não o quanto eu mesma poderia supor que me entristeceria por estar só, há décadas atrás... Para compensar a falta de gente à minha volta, conto com dezenas de nítidas, coloridas e luminosas imagens, que fazem parte de minhas recordações. Lembro-me de pessoas com as quais partilhei minha vida, numa época em que eu ainda não me havia capacitado a prescindir de companhia. E houve sóis, ventos, noites e dias; e houve também muitas chuvas, porém muito diferentes desta de agora, porque eram chuvas regadas a bolinho de chuva!

E pensar que nenhuma importância eu costumava dar àqueles bolinhos! Geralmente, experimentava um ou dois apenas, com açúcar e canela, que lhe davam sabor especial. Não os valorizava, pois não apreciava doces, ao contrário de hoje, que tanto os desejo, sendo que deles tenho de me afastar... Também detestava os dias chuvosos e não sabia ficar sozinha. Acredito mesmo que gostava de quase nada, mais pelo fato de pouco conhecer, do que por muito desdenhar. Na realidade, do ponto de vista material, tinha o mínimo, porém, tudo possuía, numa ambigüidade fácil de se entender... Atualmente, deliciando-me apenas com a existência de muitas coisas - e sem ousar dizer, em sã consciência, que nada tenho - posso garantir que tão somente Me tenho, de corpo e alma, sem açúcar, mas com afeto. O afeto é para mim o doce mel da alma. Provavelmente, aprendi a valorizá-lo, também nos momentos em que assistia o ritual de minha mãe, em frente ao fogão, fritando seus bolinhos de chuva e emprestando à tarefa todo carinho, pois era com seus petiscos que costumava sustentar e garantir a amizade das pessoas que gostava, principalmente em dias como este, quando as saídas ficavam tão inviáveis quanto a minha referida caminhada, um contratempo que me levou de volta ao passado, meu fiel companheiro deste início de velhice.

Ao redigir este texto, imaginei que iria concluí-lo antes da chuva passar. Quem passou depressa foi o tempo, que me obrigou a deixar descansando a mente e as palavras, por aproximadamente doze horas... Entre refeição, televisão e o acordar, após uma noite de sono, retomo às minhas memórias, que aos poucos vão-se tornando mais e mais obnubiladas, devido a presença da claridade, anunciando a chegada de um novo dia. Ele penetra através da vidraça e me confidencia que, logo, logo, o sol estará por aqui... - Que dia é hoje?

A consciência do presente, aliada à cronicidade dos afetos maturados dentro de mim, me sinalizam: hoje é o dia do aniversário de uma grande amiga, velha e mui querida amiga: Berenice. Tenho a certeza de que, em nossa memória comum, o espaço da verdadeira amizade ainda permanece largo e arejado, mesmo após cinqüenta anos, permeados de tempo bom e intempéries. Parabenizo-a, nesta oportunidade e lhe ofereço, com o carinho de sempre, que ela bem conhece e se faz merecedora, os meus bolinhos de chuva.



Escrito por Clerzinha às 06h04
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Uma Mão Lava a Outra

Dezenas de vezes, durante toda a minha vida, ouvi e pronunciei essa frase! Não me recordo quando foi a primeira, mas tenho absoluta certeza da última vez que ela me veio à mente, aos lábios e aos ouvidos: foi há poucos minutos atrás, na padaria, quando a balconista ajudou-me a segurar o pacote e pagar as compras, até que eu conseguisse colocar na carteira o troco, utilizando-me apenas da mão esquerda, vez que tenho imobilizado o braço direito e, conseqüentemente, a mão que lhe corresponde. No momento em que, entre as curtas frases que trocamos, em tom amistoso e meio conformista, repeti o conhecido provérbio, tenho absoluta certeza do que eu estava querendo expressar, porém não sou capaz de precisar como aquela funcionária apreendeu minha fala – se é que apreendeu -, pois as palavras, além do vernáculo, possuem sentido idiossincrático, isto é, sua interpretação está sempre vinculada à maneira de ver, sentir e reagir das pessoas que as pronunciam ou captam. È provável que a moça possa ter acatado minha frase como um agradecimento a ela, em razão de sua solicitude, um significado de cunho social, ligado ao sentimento de cooperatividade. Dentro dessa linha, ainda poderia citar diferentes significações, mas acontece que não tenho intenção de fazer análise de um dito popular – não me atreveria a tanto, pois sou leiga em matéria de Sociologia, Antropologia ou Lingüística – e, sim, revelar detalhes de minha subjetividade frente aos acontecimentos do dia-a-dia, única razão que me motiva a tornar viável este Blog. E, nesse âmbito restrito da intimidade pessoal, o que eu disse de forma leve e espontânea, tem a ver, ao mesmo tempo, tanto com o sintoma psicológico da incapacidade física temporária com o qual estou sendo obrigada a conviver, como também com minha busca incessante de auto-aprendizado.

Aproveito esta oportunidade que a vida me está oferecendo, para entrar em contato direto, sem subterfúgios, com alguns limites físicos que a situação me impõe e, ao mesmo tempo, vou testando minha atual capacidade de adaptação às novas circunstâncias. Literalmente e mais, ao vivo e em cores, concluo: nem sempre, uma mão pode lavar a outra; às vezes, uma delas tem de se contentar apenas em SE lavar e a outra, em aguardar... Enquanto uma aprende - utilizando todos os seus talentos para si e também para se tornar apta ao enfrentamento de uma nova dinâmica imposta pela realidade - a outra, que sempre esteve a seu lado, auxiliando-a, desde a concepção no ventre materno, tem de se contentar em assistir passivamente às desajeitadas ações desse novo aprendizado, numa fase em que a espera é a chave para o retorno à normalidade... Eu e minhas metáforas!

Todas as pessoas, num ou n'outro momento de suas existências, se utilizam de metáforas para atingirem alvos perseguidos, seja de forma consciente ou inconsciente. A definição da palavra, segundo o dicionário, não é tão simples, no entanto, na prática, ela faz parte da nossa comunicação, principalmente quando pretendemos utilizar um termo no lugar de outro, cujo significado nos possa parecer inconveniente em determinadas situações...

Do ponto de vista psicoterapêutico - que é a “minha praia” - as metáforas (conscientes, inventadas) podem funcionar como ferramentas importantes para a criação de novas fantasias (saudáveis) que, ao serem colocadas no lugar das antigas (doentias), sempre acabam propiciando algum tipo de mudança a uma pessoa carente - de saúde mental, auto-conhecimento, ou até mesmo, quem sabe, auto-realização. Por outro lado, em se tratando de manifestações inconscientes, a busca de solução para os problemas dessa natureza pode ser revelada também a partir da análise dos sintomas de determinadas doenças - sejam elas de ordem física ou psíquica - que uma pessoa apresenta. A linguagem desses sintomas é avaliada como sendo uma metáfora que faz parte da comunicação não verbal da pessoa doente, na tentativa de encontrar saída para a resolução de seu(s) conflito(s) interno(s).

Depois do breve arrazoado sobre algo do que ainda conservo retido e bem conservado na memória - saberes adquiridos antes, durante e após cursar a Faculdade de Psicologia - resta-me retornar ao início do texto, para cumprir meu propósito de ME desvelar para o mundo virtual, ao mesmo tempo em que, aos poucos, ME vou descobrindo, numa fase de vida em que “todas as fotos de minha existência já foram batidas”, só me restando a tarefa de sua revelação. Minha auto-análise é lenta, mais por conta dos impedimentos técnicos da analista, do que pelo temor do retorno do reprimido, por parte da analisanda... A metáfora inconsciente da quebra de braço é real, pois posso comprová-la com documento hábil: utilizei esse termo de forma inadequada, quando redigi o texto História de Indios, publicado dias antes de me acidentar, sendo que pretendia dizer queda de braço (entre culturas). Ainda não fui capaz de decifrar satisfatoriamente esse ato falho... Então, para ME compensar, incorporo plenamente a terapeuta – no sentido de curadora – que habita dentro de mim, desde a infância (ela nem se preocupa muito com o aperfeiçoamento técnico que a formação lhe propiciou) e vou construindo MINHAS metáforas... Elas me confortam, me consolam e me ensinam coisas por demais necessárias nesta etapa transitória de ansiedades, algumas dores, muitos transtornos e rápida evolução. E a analogia, irmã gêmea da metáfora, me aponta para a observação inusitada de um braço e uma mão - tida como "boba", só teria servido para receber a aliança do casamento - que hoje estão conseguindo, entre outras tantas ações utilitárias, digitar, já com alguma ligeireza. As palavras superlotam minha mente, sempre em busca de troca, a qual se torna impossível fora da comunicação. Hoje, novamente, eu estou bem! 



Escrito por Clerzinha às 16h15
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Humildade

Num dia qualquer do ano de 2005, a "ficha" da humildade caiu e, assim, pude iniciar minha ligação permanente com essa virtude, cuja linguagem aos poucos vou aprendendo a traduzir... Conto com o auxílio do Dicionário da Maturidade, uma ferramenta indispensável para a otimização dos meus diálogos com as emoções, paixões e ensinamentos que a convivência com o mundo me vem propondo, desde quando decidimos comungar a mesma existência. Foi um momento marcante, que vivi solitariamente e dele pude extrair a seguinte inspiração:

Eu Não Dou Conta

Não dou conta de mim,

Do que sou, do que quero,

Do que posso e do que não posso.

Não sei mais o que é possível,

O que é impossível,

O que pode ser provável

E o que se tornou improvável.

 

Quero tudo!

Tenho nada...

Quando posso tudo,

Sem fazer nada,

Porque dou conta de nada!

 

Nada É.

Tudo pode.

Ser é Tudo...

Poder é Nada!

De vez em quando, o jogo de palavras se torna meu entretenimento preferido, mas é preciso, no entanto, que estas façam sentido para mim... Não vale o passatempo, as simples "Palavras Cruzadas", que os Geriatras tanto recomendam às pessoas da Terceira Idade. Tenho produção própria e, acima de tudo, ME tenho, não preciso distrair-me de mim mesma, pois, com humildade - ainda que esta possa a muitos parecer uma afirmação cabotina - cheguei à conclusão de que, a esta altura da vida, o único aprendizado útil que posso arriscar-me a perseguir é o aprendizado sobre esta pessoa (eu mesma), que me tem em suas mãos!...



Escrito por Clerzinha às 10h54
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Histórias de Indio

Em antigo documentário sobre o Xingu, Orlando Vilas Boas relata com detalhes sua maravilhosa aventura junto aos silvícolas brasileiros, histórias de uma vida que todos os habitantes deste país deveriam conhecer. Entre tantas situações interessantes, três delas me tocaram e encantaram profundamente, motivo pelo qual desejo vê-las registradas neste meu rascunho de prosa:

Certa vez, na aldeia, apareceu um vizinho "do estrangeiro", interessado em conhecê-la melhor. Três índios apontados pelo sertanista lhe mostraram toda a região. Satisfeito com o que vira e, ao mesmo tempo agradecido pela hospitalidade, no momento de se despedir, o homem decidiu presentear seus cicerones. Como não se havia prevenido, sem portar qualquer objeto especial que lhe pudesse servir de regalo (adoro o termo, no sentido que lhe dão os portenhos), retirou do bolso um sabonete, dividiu-o em três pedaços, dando um a cada seu acompanhante. Em seguida, solicitou-lhes de presente uma flecha, para levá-la como lembrança daquela gente hospitaleira. Um dos índios pegou a flecha, quebrou-a, separando-a em duas partes desiguais, ficando com uma delas - a menor - dando a maior ao visitante...

De outra feita, conta Vilas Boas, que se encontrava ao lado de uma índia, a qual moldava barro para a fabricação de utensílios domésticos em miniatura, como tigelas e panelas, de diversos formatos - aves, insetos, além de outros animais - tudo sendo feito com esmero e perfeição de detalhes, quando, de repente, percebeu que uma criança, ainda muito pequena, filha da artesã, ia pegando um a um aqueles objetos prontos e os destruía. Após a terceira repetição, Orlando, curioso, questionou a mulher sobre o comportamento da pequenina, ao que ela lhe respondeu, com a maior naturalidade, que a criança "precisava fazer aquilo". Ele, não satisfeito com a resposta e sempre buscando compreender, insistiu, argumentando o seguinte: uma vez que as panelinhas serão destruídas, porque, então, não fazer "qualquer coisa", sem a necessidade de (perder tempo) tantos detalhes trabalhosos (alças, asas, biquinhos, etc.)? A índia-mãe, simplesmente reforçou-lhe que a menina tinha necessidade de destruir "aquelas panelinhas", não outras... Após exterminar onze peças, todas esculpidas com igual desvelo, a criança se afastou, indo juntar-se a outras, que brincavam em local próximo, enquanto a mãe calmamente dava continuidade à execução de seu delicado trabalho...

Num terceiro momento, relata o sertanista que estava sentado, ao lado de um índio e seu filho, um menino de aproximadamente oito anos de idade. A conversa parecia animada e interessante, quando o pai lhe disse que precisava sair para beber água. Vilas Boas questionou-o sobre a possibilidade de pedir à criança que lhe trouxesse a água, vez que estava ali sem ocupação. Respondeu-lhe simplesmente o índio, que não sabia se o filho desejava fazer aquilo e, decidido, saiu, indo cumprir seu intento. Insatisfeito em relação à sua própria curiosidade, o estudioso aproximou-se do menino e lhe perguntou se ele traria a água, caso o pai lhe tivesse feito o pedido, ao que o indiozinho prontamente lhe respondeu: - Sim!

Não me sinto capaz de exprimir meu encantamento em relação a tais relatos, um enlevo que se potencializa, quando me vêm à memória a figura e o tom do narrador, imagens e sons impossíveis de serem transportados para a minha própria narrativa.

Deparo-me com inúmeros questionamentos, inclusive os que me remetem aos conflitos e às tragédias relacionadas aos processos de colonização. Na quebra de braço entre culturas, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco... Nossos "selvagens" nos dão belos exemplos de convivência harmônica entre diferentes gerações; de respeito mútuo e incondicional à criança, aos velhos, à família e à comunidade. Ensinações valiosas acabam se perdendo e o encanto só consegue sobreviver através desse tipo de narrativa, documentos que, felizmente, alguém ainda está sendo capaz de preservar. Lamento o fato de que poucos demonstrem interesse e outros tantos - sempre muito poucos - tenham acesso a tais ensinamentos. Eles costumam ficar escondidos, dentro de fitas cassete, ou DVD, num acervo qualquer de entidade sem fins lucrativos, enquanto a televisão nos satura diariamente - dezenas de vezes ao dia - ao vivo e em cores, com cenas mais que chocantes de pais "civilizados" que jogam seus filhos pelas janelas de seus apartamentos.

Em meio à desolação provocada pelos atos desumanos com os quais sou obrigada a conviver na cidade, busco guarida na fala de um ser humano, que optou por estar junto, durante mais de quarenta anos, dos verdadeiros donos desta terra e também lutou pela sua causa. No meu entender, ele conseguiu perceber desde logo, que tinha muito a aprender, a partir desse efetivo e íntimo convívio, lições que os ditos civilizados provavelmente, ainda não foram capazes de "decorar"...



Escrito por Clerzinha às 14h45
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Poucas Palavras

Helena Kolody - uma virtuose das letras, como a proclama uma amiga também poetisa - resumiu, em pouquíssimas palavras, o que levei mais de cinqüenta anos para assimilar e, depois, aprender a relatar:

"Muito briguei eu comigo,

tive raiva,

me insultei.

E, de incontido desgosto,

em meu próprio ombro chorei."

No teatro da vida, os anos "idos e vividos" (só para lembrar meu ídolo Machado de Assis), vêm-me permitindo assistir o espetáculo da evolução de minha personalidade, o qual aconteceu de maneira lenta e natural, durante os dois primeiros atos, e de modo veloz - aos trancos e barrancos, como se costuma dizer, em linguagem popular - após o intervalo principal, que representou o divisor de águas de meu existir neste mundo. O terceiro ato começou, sem que eu tivesse percebido. Ele está sendo encenado, preciso dar-lhe toda a minha atenção, pois não tenho certeza alguma da existência do quarto...

Quando sou convidada a subir ao palco, a fim de representar, sinto-me segura e convicta durante minha atuação. Conheço minhas incapacidades, tanto quanto as aptidões. Não conto com "memória", para interpretar textos decorados mas, em contrapartida, dou mostras de que sei improvisar. Sou também capaz de acumular funções, como por exemplo, a de diretora e a de intérprete, além de ser resignada e humilde o suficiente para me contentar com pequenos papéis. Meu foco é a grandeza do espetáculo, se puder contribuir para que essa meta seja alcançada, vou considerar-me uma estrela, não mais mera atriz. Sei conviver, sem ressentimentos, com a falta de aplausos, todavia, desconheço qual reação poderei apresentar, caso tenha de me deparar, numa noite qualquer, com uma platéia vazia... As antigas auto-incriminações - e suas parentes próximas, as culpas - bem como o hábito de me fazer cobranças - falas marcantes na composição inicial de meu script - abdicaram seus espaços em favor da compreensão, que tornou muito mais leve o texto, ainda que mais volumoso. Apesar de me ter livrado delas, não me permito ser ingrata, a ponto de atirá-las para o rol dos diálogos imprestáveis com a vida. É possível que tenham sido importantes, e até mesmo necessárias, dando voz a um contexto de difícil compreensão, que precisava sobressair-se sob as luzes da ribalta...

Como espectadora, busco a primeira fila - a do "gargarejo" - para ver, ouvir e sentir bem de perto esse espetáculo que não será reprisado... Sentada nesta poltrona, olhando em todas as direções, mas sem perder o foco, constato que sou capaz de me perceber, de me sentir e, principalmente, de me ter. Já consigo não fazer alarde e permanecer calada, pois me encontro saciada o suficiente para interromper ou dar descanso às minhas buscas, nos momentos em que as comprovo malogradas... A atenção flutuante me permite observar, ao mesmo tempo, todas as performances que se apresentam no palco, bem como a minha própria, ora coadjuvando, ora antagonizando-se. Por outro lado, o registro de memórias me confere a certeza de que todos os meus pedidos (a Deus) da fase juvenil foram atendidos. Então, de posse da totalidade dos fatos e do futuro, que hoje é passado, vejo-me como pessoa capaz de identificar melhor novos sentimentos - como o de realização e o de leveza - os quais também me podem dar sustentação, a exemplo de outros tantos, que tiveram o mesmo papel em outras fases de minha vida. Quando jovem, aspirei ser alguém melhor; na maturidade, decidi ser apenas quem sou e, dessa forma, retirei o peso incômodo do ser ou não ser que pairava sobre minha cabeça... Venci a dificuldade em admitir o óbvio - ninguém é capaz de dar, a si ou ao mundo, mais do que possui - desiludi-me, sem me recriminar por me haver um dia iludido e eliminei o fascínio pelo risco. Não me livrei da dúvida - novas dúvidas -, da ansiedade, das frustrações do cotidiano e também da esperança, constatação que me sugere, no mínimo, que continuo sendo humana... E, quando vejo minha imagem, não mais necessito perguntar-me:

"Quem é essa

que me olha

de tão longe,

com olhos

que foram meus?"

(Kolody - Retrato Antigo - 1988 )

Acredito que tenha superado a autora, em matéria de auto-conhecimento, mas, como tudo na vida tem preço, paguei-o com a perda de minha inspiração poética, perdendo assim a garantia da imortalidade, que somente os verdadeiros artistas conseguem conquistar. Não sendo como ela, mulher talentosa e de poucas palavras, tento melhor valorizar o rascunho de minha vida. Creio mesmo que seja impossível passá-la a limpo, todavia, se assim fosse, conhecendo-me como me conheço, não tenho dúvidas, jamais iria prestar-me a esse trabalho: simplesmente, escreveria outro texto, ensaiaria outra peça, faria longos poemas e... contaria uma nova história...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Clerzinha às 10h55
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Inocência

Quando tive oportunidade de estudar algo sobre velhice, ainda não me havia iniciado nessa fase de vida, portanto, interessei-me pelo assunto, apenas sob o ponto de vista teórico, tendo deixado nas mãos do tempo a tarefa de me ensinar o prático... Ele, sempre apressado, foi logo preparando suas aulas e, sem nada perguntar às horas, passou a ministrá-las, sempre exigindo de mim superação no aprendizado, como se eu fosse, de fato, a primeira aluna da classe... Haja consciência! Haja responsabilidade! Haja boa vontade! Haja paciência!

Há mais de dez anos atrás, os estudiosos do tema - Envelhecer com Qualidade de Vida - colocavam três pilares de sustentação para uma velhice saudável: Integridade, Generatividade e Intimidade. Essas seriam metas que o idoso - pessoa com mais de 60/65 anos - deveria atingir, com o auxílio dos diversos profissionais da área de saúde - geriatra, psicólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, nutricionista e outros - caso estivesse interessado numa terceira idade bem sucedida. Não me estenderei no assunto, porque dados teóricos nada têm a ver com a minha conversa informal neste blog. Adianto, porém, que já tive oportunidade de falar algo sobre intimidade, num de meus textos anteriores (Arquivos em Alta), quando ressaltei sua importância nos relacionamentos de amizade. Em relação à generatividade, esta mensagem -intitulada Inocência - talvez possa esclarecê-la, não como reza a teoria, mas de uma maneira prática, tal e qual aconteceu comigo, há poucos dias, a partir da minha mais graticante vivência deste final de verão, que ainda reluta em nos deixar... 

Atualmente, não tenho tido contatos muito freqüentes com meus netos, mas, de qualquer modo, quando os tenho, são sempre intensos e, para mim, um verdadeiro laboratório de realização pessoal, onde a gratidão - pelos prazeres do passado - se junta à alegria do presente - que eles sempre me oferecem gratuita e desinteressadamente - num cadinho repleto de afetos deliciosos. Nenhuma outra experiência, a esta altura de minha vida, tem conseguido ser para mim tão estimulante, quanto a de ser avó. De todos os seus ingredientes, consigo tirar o melhor proveito - até porque nunca se misturam aos do ofício de mãe - sem culpas, preocupações inúteis e apegos desnecessários... Os comportamentos que mais me enternecem, no contato com meus netos são, sem dúvida alguma, suas demonstrações ativas e públicas de afeto, sempre permeados de delicadeza e muita, muita inocência. Faço esforço para conter as lágrimas de ternura que me brotam nos olhos, sempre que nos abraçamos e beijamos. 

Por conta do clima delicioso de carinho, no qual passei toda a tarde da última quarta-feira, junto às minhas queridíssimas Laura e Helena, fui buscar um poema que copiei, no ano de 1963, em meu cadeninho de pensamentos:

" É a inocência que está cheia e a experiência vazia.

É a inocência que ganha e a experiência que perde.

É a inocência que é jovem e a experiência que é velha.

É a inocência que crê e a experiência que não crê.

É a inocência que nasce e a experiência que morre.

É a inocência que sabe e a experiência que ignora.

É o menino que está cheio e o homem vazio.

Vazio como uma abóbora ou tonel sem nada.

 

Ide, meus meninos, ide à escola

E vós, homens, ide à escola da vida.

Ide aprender

a desaprender"

(Carlos Peguy - Mistério dos Inocentes)

Na ocasião, eu tinha apenas dezessete anos de idade - ainda possuía resquícios de uma inocência que acabou se perdendo no tempo - e, de algum modo, já sabia valorizar o que na vida realmente tem valor... Agradeço à mãe natureza, por me possibilitar rever tal virtude, depois de algumas décadas de vida, através dessas  doces criaturas, que indiretamente ajudei a colocar neste mundo... Desejo-lhes, com muita força, que dela possam usufruir por um longo período de vida - o quanto mais, melhor - e que, um dia, no futuro, consigam também revê-la, do mesmo modo que hoje o faz vovó - num de seus pequenos GRANDES momentos de inenarrável gratidão. Amém!     

           



Escrito por Clerzinha às 16h52
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Passado, Presente e...

Minha mãe sempre costumava se utilizar de frases feitas para dar sua explicação a qualquer acontecimento, desde o mais corriqueiro, como um fuxico de vizinha, até o inusitado, como por exemplo, a morte de um parente ou amigo. Parece-me que a generalização de algum modo a confortava... Dona Iracy, de apelidos: Ceci, Cicy e até Sissi - por causa do filme da Romy Schneider - costumava dizer: - O futuro a Deus pertence! e o fazia de modo tão solene, que a proposição ainda soa forte em meus ouvidos. Acredito que, subjacente a tanta fé, havia mesmo era o desejo de não precisar tomar as rédeas de sua vida, deixando o mais complicado para Ele resolver... Bem, mas esse é assunto para uma outra oportunidade. Peço desculpas, a quem consegui atrair para esta leitura, a partir de suas primeiras palavras, porém, não escolhi falar de minha mãe e, sim, do tema cujo título enunciei. Como disse, aquele ditado ainda ecoa em todas as paredes de minha existência, é impossível acreditar-me isenta de qualquer influência em relação ao peso de seu conteúdo, por isso, deixando de lado o orgulho, me pergunto: - Que faço, a esta altura da vida, se já não posso entregar a Deus coisa tão insignificante, ou seja, um futuro encurtado, melhor dizendo, um futuro que já foi quase totalmente consumido pelo tempo? Certamente, Ele interessou-se pelo de minha mãe, porque era no mínimo longo, vez que ela lh'o ofereceu, acredito, na época do catecismo, tendo vivido oitenta e cinco anos. - Opa! olha eu aqui falando dela novamente...

Na prática e, em sã consciência, jamais ofertei a quem quer que fosse o meu futuro, até porque foi o único bem não perecível (pelo fato de ter vindo sem prazo conhecido de validade) que a vida me deu, antes mesmo de eu nascer. Agarrei-o com muita força e o protegi como pude, desde a segunda invasão que sofreu - a partir da ingerência do pediatra que me examinou e me declarou uma recém-nascida à beira da morte - até há bem pouco tempo atrás, quando comecei a me preocupar com o traço firme da finitude, que surgiu de repente na linha do horizonte... O prognóstico médico não se cumpriu, graças à minha bem desenvolvida capacidade de auto-proteção. De fato, eu havia começado muito bem.

Pretendendo falar de futuro, acabei comentando o passado e confessando uma angústia do presente. - Estarei enfrentando um paradoxo? Acredito que não. Venho admitindo que, do ponto de vista da existência, Tudo é uma coisa só; para o SER, não existe linha do tempo, uma criação da mente racional, de indiscutível e absoluta utilidade, todavia, longe de ser a única verdade...

Quando necessito de direcionamento, busco-me, inicialmente através da lógica e da didática - analiso, construo gráficos, faço esquemas, utilizo metáforas, recorro aos ensinamentos que minha razão conseguiu apreender até o presente momento - "minha razão é meu guia" - e não é que, em determinadas situações, consigo obter resultados satisfatórios? Percebo, com certo orgulho, que também sou capaz de me dar boas respostas e que já não dependo tanto da vontade alheia... Acontece, no entanto, que a questão do tempo, tal qual se me apresenta, deixa de ser puramente racional, pois a passagem dos dias, no meu sentir acelerada demais, acabou se transformando em verdadeira corrida, não mais no tempo e, sim, contra ele, uma empreitada que não consigo levar a cabo. Não encontro conhecimento formal, ciência ou filosofia que dê conta desse tipo de orientação. Necessito de sugestões diferentes das costumeiras que o mundo me tem dado, de uma novidade embasada numa outra ordem - existencial, emocional, ou espiritual - de novo alento. 

Não entreguei a Deus meu futuro, fui consumindo-o aos poucos, em forma de presente, até chegar à realidade atual, já com ele bastante encolhido e afunilado... - Fazer o quê? Resolvo, então, desprezar a razão e rever aquela minha antiga faculdade de criar novas idéias - a mesma da infância, uma ferramenta esquecida num dos cantos obscuros do tempo - e eis que, sem esforço, num passe de mágica, ela vem, tal como sempre foi - direta, clara e descomplicada - sugerindo-me de imediato: - Não busque a didática, isso é coisa de mestre, gente que quer ensinar e, não, aprender... Use a semântica, ou melhor, mude a semântica, busque outro termo, encontre outro sentido!

Replico: Que será isso, afinal? Não posso trocar a palavra futuro, por qualquer outra; durante anos e anos, ouvi dizer que a linha do tempo é formada por três vocábulos inseparáveis: passado, presente e futuro, não vai dar certo! Ela, a imaginação, desde os primórdios de minha vida, sempre foi a dona da trépica, fato incontestável para mim... Aguardo pacientemente seu pronunciamento, que então me chega luminoso e confortante:

- Você pode, sim, escolher o que quiser e, a partir dessa escolha, transformar todo o conjunto: basta que seja firme ao pronunciar a nova palavra, tanto quanto ao pensá-la, ao senti-la e, principalmente, ao vivê-la:

                       Passado, Presente e ESPERNÇA! 



Escrito por Clerzinha às 04h07
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Ser e Não ser Carolina

Neste ano, pelo fato da coincidência entre datas: sábado, dia de publicar novo texto no blog e, sábado, 08 de março, Dia Internacional da Mulher, sinto-me levemente pressionada a fazer comentário vinculado ao assunto, mais pela provocação ao prazer de contar minhas intimidades, do que motivada por qualquer sentimento ligado à defesa dos direitos das mulheres, menos ainda, pela exacerbação de um feminismo tardio... Sou mulher, fiz e continuo fazendo tudo o que as representantes de minha geração fizeram ou pretenderam fazer e, se acreditasse na possibilidade de morrer e voltar a viver, gostaria de vir-a-ser novamente mulher. Sinto-me privilegiada pela natureza, só pelo fato de pertencer ao sexo feminino, apesar de ter consciência de meus limites, que não são poucos, bem o sei.

Quando tinha dezesseis anos de idade e cursava o primeiro ano do científico (equivalente ao colegial, segundo grau, ou coisa que o valha), adorava as aulas de Literatura, nas quais estavam incluídas noções básicas de Métrica. Lembro-me até da letra da professora, colocando no quadro negro um soneto, o único que fui capaz de decorar e jamais esquecer, mesmo após quatro décadas de vida. Aprendi logo, tudo o que me foi ensinado do ponto de vista técnico - quatorze versos, dois quartetos, dois tercetos, etc. - mas acredito que tenha apreendido muito mais... Entre tantas outras coisas que poderia comentar neste espaço, seleciono sublinhar o fenômeno psíquico de minha introjeção, a partir do que pude captar como símbolo do amor ideal de um homem em relação a uma mulher. Mesmo não tendo ficado imune às pressões hormonais da fase juvenil - submissão à beleza e força físicas masculinas - bem lá no fundo de minha alma, abriguei pequenas sementes de outros sentimentos - mais nobres, talvez, segundo visão romântica ou amadurecida - a admiração, o companheirismo, a gratidão e a amizade, tudo, no lugar da paixão, que pode satisfazer por um período, mas não é capaz de sobreviver por muito tempo, menos ainda à morte. Não estou falando de Romeu e Julieta - nem sei se aquele amor adolescente foi verdadeiro, há controvérsias... - assim como de nenhuma outra história real de amor, do tipo "até que a morte os separe", que tenha sido fartamente explorada pela mídia. Trata-se de uma relação amorosa, que ainda não se mostrou suficientemente interessante para algum cineasta desejar transformá-la em filme de bom gosto. Estou falando, simplesmente, da maior, melhor e mais bem fundamentada declaração de amor que pude conhecer até esta data; uma realidade poética que me emocionou na juventude, incorporou-se à minha fantasia inconsciente, ficou hibernando por longos anos em meus arquivos remotos e, nesta semana, de repente, explodiu, saindo diretamente da memória emotiva para a tela do computador, quiçá com alguns erros, pelo fato de eu não poder contar, neste momento, com livro, manual literário, ou outro instrumento semelhante para transcrevê-la com total fidedignidade. É provável que, na construção de meu modelo feminino, eu tenha recebido algum tipo de influência, do que consegui captar em relação ao comportamento dessa mulher à moda antiga: eterna companheira, capaz de se colocar no mesmo patamar do marido, porém, apenas no sentido de sua real contribuição para o desenvolvimnto de uma carreira brilhante e compensatória. Segundo minha imaginação femínea, ela se transformou verdadeiramente em objeto - de conformidade com os padrões vigentes de sua época - mas, ainda como tal - objeto de reconhecimento e de adoração - passou a ser eternamente reverenciada pelo seu homem e todos os seus fiéis "devotos": À Carolina

Querida, aos pés do leito derradeiro,

Em que descansas desta longa vida,

Aqui venho e virei, pobre querida,

Trazer-te o coração de companheiro.

 

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro

Que, a despeito de toda a humana lida,

Fez a nossa existência apetecida

E num recanto pôs um mundo inteiro.

 

Trago-te flores, restos arrancados

Da terra que nos viu passar unidos

E ora mortos nos deixa e separados 

Que eu, se tenho nos olhos malferidos,

Pensamentos de vida formulados,

São pensamentos idos e vividos"

Machado de Assis é, no meu entender, o mais "santo dos santos" de meu templo literário. Se eu tivesse nascido no século XIX, certamente teria desejado ser Carolina, para compartilhar de seu altar. Nasci no século XX, inconscientemente desejei ser como Carolina e já tive a oportunidade de ter um poema só para mim, mas isso são águas passadas... Estou vivendo no século XXI, não consegui chegar perto do que é ser Carolina, todavia, me resta uma esperança, porque, para ser realmente Carolina, não basta apenas viver...   



Escrito por Clerzinha às 14h31
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Sol Demais

O verão do litoral limita meu espaço de atividade física ao ar livre. - Na minha idade, sol? Apenas quinze minutos diários, antes das dez horas! Acontece que este corpo, há muito tempo, vem contando com minha colaboração espontânea, não apenas no sentido de sua boa conservação, mas também no de equalizar consumo e gasto de energia. Até a minha terceira década de vida, ele tinha pouca representatividade para mim - havia e acontecia em função do(s) outro(s), resumindo: sociedade, trabalho e família. Aos trinta e dois anos, aproximadamente, não por vaidade, mas devido a questões ligadas à saúde, fui obrigada a lhe dar importância e, assim, passei da inconsciência à consciência corporal - "sinto, logo existo!" - que levou anos para se completar... Aos poucos, comecei a freqüentar lugares arborizados, parques, clubes e, na seqüência, academias de ginástica e até aulas de natação. Durante tempo considerável, pratiquei o "velho Cooper" que, a partir de 1998, foi definitivamente substituído pela caminhada. Dela me tornei dependente e, nesta nova fase de vida - a velhice - o que era lazer, passou a ser dever. 

Nos momentos em que os verbos envelhecer e adoecer forçam conjugação na minha pessoa, de modo sistemático, tento também tornar úteis as "boas" informações captadas no plano mental, para auxiliar o físico, sob todos os pontos de vista - estrutural, funcional, metabólico, neuronal e tudo mais que a Fisiologia Humana determinar - sem olvido do plano emocional, esse motor que funciona muitas vezes até sem combustível... Se depender do meu esforço, o triângulo ou trindade - corpo, mente, emoção - terá de manter sua inteireza, preferivelmente até sempre.

Sou a única responsável pela manutenção deste meu melhor patrimônio, não me posso deixar dominar pela acomodação, tenho de diligenciar e um quarto de hora lá fora é tempo insuficiente para que eu consiga colocar em dia meu treinamento físico, além do que, saindo à rua, vejo gente e amplio a consciência sobre o viver - tarefa árdua, porém diletante - que também me propus realizar de alguns anos para cá. Durante o verão, brigo com o sol, porque encontro dificuldade para enfrentar sua luminosidade e seu calor causticantes, que não dão trégua até o anoitecer. E... quando o astro rei busca o ocaso, vou-me acomodando, a exemplo de Chapeuzinho Vermelho: recolho-me "à tardinha, ao sol poente, junto à mamãezinha". Identifico-me com essa personagem, talvez pelo fato de me lembrar que, durante quase toda a infância, minha mãe me colocava na cama para dormir, antes mesmo do anoitecer e eu não tinha outra alternativa, a não ser buscar o sono que, muitas vezes, em razão de ter sido forçado, durava pouco, terminando no início da madrugada propriamente dita. Ao acordar, eu acreditava que já era outro dia, então, inocentemente, "dava-lhe o troco", interrompendo seu merecido descanso, com a pergunta: - Mãe, hoje já é amanhã?

Também não posso negar o quanto a luz natural me obriga a enxergar com nitidez e maior veracidade a vida que pulsa ao meu redor: brilho demais, ofusca-me os olhos; calor demais, ferve o meu sangue; vento demais, me derruba e chuvas demais me encarceram em casa. Ao longe, todos os dias, vejo pequenas e grandes ilhas - verdes montes, sempre no mesmo lugar, parados à minha espera... - Ah, como gostaria de alcançá-los, não apenas com o olhar, como tem sido possível, mas com o tato, a audição, o olfato e até o paladar... O oceano entre nós é uma barreira real, enorme barreira, que ora me amedronta, ora apenas me inibe. Se eu tivesse um barco, ao menos uma pequena canoa, arriscar-me-ia a ir até lá...

Fico, então, com o sol, confortavelmente instalada à sombra de meu teto acolhedor, com vista para o mar. Este, sempre me parece calmo - não estamos tão próximos assim - mas às vezes percebo que entra em conflito com o vento - ou será que é o vento que o invade, sem lhe pedir licença? - e, nessas ocasiões, me recolho, sem me encolher, pois estou aprendendo a conviver melhor com as nossas intempéries - as de dentro, as de fora - eu e ela - a natureza - ambas, partes do mesmo Todo, cada qual em seu devido lugar...    



Escrito por Clerzinha às 05h01
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