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Blog da Clerzinha


 

Hoje é dia de despedida!

Um adeus formal a uma criança explorada, cansada de fazer redações e concessões... Para ela, este blog funcionou como uma espécie de Caderno de Dever de Casa digital, onde pode rascunhar algumas tarefas exigidas pelo Mundo, seu mestre sempre exigente e implacável.  Trata-se de um professor que lhe tem mostrado o poder negativo da indiferença frente a esforços para a convivência humana harmoniosa, ou a valorização da Vida e do viver.  Ele insiste em não lhe dar o direito de novas aprendizagens, a partir de suas sábias correções, caso lhe fossem permitidas...  Desse modo, a inexperiente criatura não está conseguindo aprender a distinguir certo de errado, viável de inviável, factível de impossível... E, assim, sente-se inteiramente desmotivada, à beira da depressão.

- Mas eu não vou permitir que essa criança marvilhosa chegue a tanto... Crianças não podem ficar depressivas!

Mesmo entendendo que certo e errado, além da logística, têm a ver apenas com a questão do momento, ela é tão somente uma menina romântica, portanto, ainda não teve vivência suficiente para desenvolver a capacidade de compreender complicadas equações, como por exemplo, a do espaço e tempo... Só consegue, por ora, intuir que chegou o momento da sesta, ou mesmo de descansar, adormecer profundamente, como sua heroína, a Bela Adormecida. Assim,  poderá reencontrar-se com seus Anjos, em sonhos coloridos... Necessita sentir-se protegida, abrigada, unicamente para não sucumbir de vez...

- Crianças não podem morrer!

 

Aquieta-te! Por tempo indeterminado, velarei por ti!

 

- Dorme, dorme, Clerzinha, sem canção de ninar!

 

Assinado: Rosicler.

 



Categoria: Afeto
Escrito por Clerzinha às 10h48
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QUANDO

- Que seria de mim, nesta fase de vida, se não soubesse apreciar a arte e dela tirar o melhor proveito?

- Nada! respondo com firmeza.

A arte é, para mim, a procuradora oficial da vida; dela recebeu, com exclusividade, o direito de tornar verdadeiramente humana nossa existência banal e mundana. Amo-a, venero-a, porque sempre me permitiu trazer para fora o insuportável, o que já não mais consegue encontrar espaço dentro de mim... Sou muito pequena, insignificante até, porém deixei de lamentar o fato de não haver nascido artista. Aos poucos, na medida do "sofrimento", sempre mesclado de esperança, vou aprendendo a ocupar com dignidade os meus espaços de devota e, ao mesmo tempo, consumidora de arte, através de todas as suas veredas.

Amo a arte de escrever (Machado de Assis e Fernando Pessoa são os santos do meu altar mor). Amo a dança, mais para dançar, porque assistir me inquieta demais (...), ao contrário da Sétima Arte, que sempre acaba me transportando para um mundo conhecido, no qual sei que jamais irei habitar... Quanto às artes plásticas, delas não me sinto muito íntima, talvez porque não tive a oportunidade de desenvolver plenamente a região do meu cérebro responsável por captá-las... no entanto, reverencio JOSÉ DE RIBERA (1591-1652), meu retratista preferido.

- E a música?

Ah, a música! Arte das Artes, amiga de todos os meus momentos, energia que flui pelos meus ouvidos "analfabetos", porém repletos de receptividade, sensibilidade e paixão! A música, o som musical, a letra das músicas, o ritmo das músicas, as canções, tudo me salva, tudo me embala, tudo me conforta e me deleita, não importa a origem...

A música de hoje, cuja letra não irei transcrever, é brasileira, atual, popular, tremendamendamente romântica; fala do passado, do presente e garante o futuro. Todos os seus versos têm a ver com o que já me aconteceu, vem acontecendo e quiçá deva acontecer num futuro próximo, onde eu possa revalidar esta escolha, na voz deliciosa de MILENA, uma cantora que não encontrei por aí, ou em programinhas da TV comercial, esse tipo de mídia que muitas vezes anda na contramão da arte, em detrimento da recriação da vida...

QUANDO, com todos os seus pontos e vírgulas, tons e semitons está sendo eleita por mim, neste dia romântico e festivo, como a MINHA MÚSICA! Eu posso! 

Ouçam-na e a apreciem como ela e sua intérprete merecem!  

 



Categoria: Afeto
Escrito por Clerzinha às 12h26
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HEI, SOL!

 

Minha canção, nesta fria e nublada manhã de domingo, tentando driblar o ar seco e a poluição da Pauliceia Desvairada, é:

 

 

Hei dor, eu não te escuto mais

Você não me leva nada...

Hei medo, eu não te escuto mais

Você não me leva nada...

 

E se quiser saber prá onde eu vou,

Prá onde tenha sol,

É pra lá que eu vou!"

 

E, como acredito na frase:

 

VOCÊ ESTÁ ONDE VOCÊ SE PÕE!

 

Tento não me desviar do meu melhor. Decido, então, continuar caminhando, em busca do Meu Sucesso. E o meu sucesso sempre será:

 

ESTAR DO MEU LADO!



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Escrito por Clerzinha às 09h18
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CONTO DE FADA

Meu papel de avó, principalmente em relação a duas menininhas, verdadeiros mini projetos de mulher, tem-me permitido novo e inédito envolvimento com as deliciosas historias infantis, destaque aos Contos de Fada, sempre a melhor pedida para corações femininos... Elas adoram ser ora, Cinderela, ora, Branca de Neve, ou Bela Adormecida e eu também, evidentemente, com motivações muito, muito diferentes. Venho tentando, na medida do possível, através de comportamentos duramente criticados por adultos da pós modernidade, transmitir-lhes algo do que consegui apreender até aqui sobre gosto pela vida, reverência ao belo e cultivo da bondade. Tudo, sempre de acordo com as suas necessidades mais prementes e menos aparentes, que a minha experiência aprendeu a detectar...

Nos momentos em que consigo abstrair-me da realidade, para meu consolo, tenho também a contar, ainda não a elas, pois nada poderiam apreciar, mas a mim mesma, principalmente, e a quem se dispõe a me ouvir, MINHA própria história de Príncipe Encantado. Trata-se de relato simplificado e nada genérico de vivência corriqueira ao final da adolescência, onde a fé, a inocência e a generosidade ganham destaque, num enredo sem espaço para efeitos especiais, fada madrinha, poder, borralho e riqueza...

Numa clara manhã do dia dezesseis de Maio, de um mil, novecentos e sessenta e seis (portanto, há quarenta e cinco anos atrás), o telefone, na mesa do gerente de uma pequena agência bancária, tocou e o chefe o atendeu, com seu costumeiro bom humor, falando bem alto, logo em seguida:

  • Oh minha flor de maracujá (como carinhosamente me chamava), é prá você!

Sem esperar nada de especial, atendi e, de início, não pude acreditar no que ouvi, do outro lado da linha:

  • Sou … (uma voz masculina, nomeando-se pelo sobrenome, que me pareceu ser realmente de príncipe nórdico europeu)... Meu amigo me falou de você, já a vi pela cidade e, ano passado, também estudei no Instituto de Educação. Será que poderíamos conversar, hoje, depois do trabalho?

Lógico que minha resposta foi sim, e com voz titubeante, tanto em razão da maravilhosa surpresa, como também da desconfiança de poder estar sendo vítima de mais uma brincadeira de meus antigos colegas de classe. Todos sabiam o quanto eu havia ficado apaixonada por aquele jovem loiro, de olhos verdes e ombros largos, desde a primeira vez em que o vi, no páteo da Escola, ainda na época do Curso Normal. Foi, de fato, amor e fidelidade à primeira vista. Nunca, até então, havia conseguido tirá-lo da cabeça, menos ainda do coração, tendo-me negado a namorar outros rapazes, pois já me considerava sua namorada, embora ele não o soubesse...

Confesso que o resto do dia útil custou a passar. Perdi a concentração nas tarefas, nem sei como o Caixa bateu ao final do expediente, contudo eu ignorava que estava vivendo o momento mais importante de toda a minha vida, aquele que funcionou como um verdadeiro divisor de águas ...

Saí do Banco, pontualmente às dezoito horas, sem dar chance para qualquer minuto de trabalho extra. Tratava-se de um encontro aguardado há mais de um ano, cuja viabilidade, tanto minha fé ingênua, como meu coração teimoso, insistiam em sustentar... De início, decepção, quase medo de não serem infundadas minhas desconfianças em relação a possíveis simulações por parte de meus amigos. Como tinha livro para devolver, fui até a biblioteca, que ficava a uma quadra do local onde havíamos marcado o encontro. Fiz rapidamente a entrega e retornei à porta do Banco, agindo desta vez como se estivesse saindo do serviço naquele momento, e não a dez ou quinze minutos atrás, como já o havia feito...

O MEU príncipe surgiu repentinamente, sem cavalo, ou carrão, nem mesmo uma lambreta, transporte preferido dos jovens daquela época. Chegou a pé e com as mãos nos bolsos da calça, talvez por desconhecer a melhor maneira de usá-las para disfarçar sua contida timidez... Meu salto alto arranhou a calçada, as pernas amoleceram, porém consegui permanecer de pé e também fui capaz de disfarçar a avalanche de sentimentos que tomaram conta de mim naquele momento, o ápice de um conto real de Cinderela, que eu, por acaso e sem saber, estava protagonizando.

Muita coisa aconteceu a partir desse evento mágico, naturalmente abençoado pelas primeiras estrelas que surgiram naquele lindo céu de outono da pequena cidade interiorana onde vivi os dias mais encantados de minha existência. Coisas boas, como a primeira formatura, casamento e filhos. Outras, nem tanto assim, apesar da poesia e do romantismo que permanentemente pairavam sobre minha cabeça...

O desagradável e menos interessante é que a história comum, ao contrário das encantadas, tem de evoluir e, para tanto, necessita criar um roteiro diferenciado, fazer ajustes nos papéis de seus protagonistas, desvios de curso dos acontecimentos, troca de posturas, etc., porque os personagens não podem permanecer eternamente jovens, belos e saudáveis. A inocência precisa ceder seu lugar à sabedoria, ou à desconfiança pessimista, enquanto a esperança, inadvertidamente, vai perdendo seu colorido original... Todavia e, apesar de tudo, até chegarmos ao epílogo, há que se percorrer muitos caminhos – páginas e páginas – que poderão ser maçantes, tanto a leitores, como à autora...

Por falta de apelo universal, este Conto de Fada não termina por aqui, mas tem de abrir mão, em definitivo, do “e viveram felizes para sempre”, porque a Realidade não é atemporal, mesmo quando se dispõe à arte imitar. Ela jamais abdica de seu prazo de validade...



Categoria: Afeto
Escrito por Clerzinha às 12h08
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A HISTÓRIA DO AMOR

Revisitando meus guardados - livros, textos, apostilas, etc. - além dos muitos retratos que consegui tirar durante minha trajetória até aqui, sempre uniformemente dispostos nas prateleiras desta memória bem conservada, deparo-me com o seguinte:

Era uma vez uma ilha onde moravam os seguintes sentimentos: alegria, tristeza, vaidade, amor, além de outros, menos famosos...

Um dia, avisaram aos moradores dessa ilha que ela seria inundada nas próximas horas. Todos correram e pegaram seus barquinhos para procurarem um lugar mais alto, talvez o Morro da Sabedoria. Só o Amor não se apressou, pois queria ficar um pouco mais em sua querida ilha... Quando já estava quase se afogando, correu, enfim, para pedir ajuda.

Estava passando por ali a Riqueza e ele lhe pediu:

  • Riqueza, leve-me com você!

Ela lhe respondeu:

  • Não posso, o barco está cheio de ouro e prata; você nele não vai caber!

Minutos depois, passou a Vaidade, e ele, novamente, implorou:

  • Oh, Vaidade, leve-me com você!

  • Não posso, você não está adequado, vai enfeiar meu barco...

Logo atrás, vinha a Tristeza e ele, desesperado, lhe disse:

  • Tristeza, posso ir com você?

  • Ah, Amor, estou tão triste, que prefiro ir sozinha!

Passou a Alegria, mas esta estava tão alegre, que nem ouviu o Amor chamar por ela.

Já desesperado, achando que iria ficar só, o Amor começou a chorar. Nesse momento, passou por ele um pequeno barco, com um velhinho que lhe falou:

  • Sobe, Amor, eu levo você!

O Amor ficou radiante de felicidade e até se esqueceu de perguntar ao velhinho qual era o seu nome.

Chegando ao alto do monte, onde já estavam acomodados todos os outros sentimentos, o Amor perguntou, então, à Sabedoria:

  • Sabedoria, quem era aquele velhinho que me trouxe?

Ela lhe respondeu:

  • É o Tempo!

  • O Tempo? Mas por que motivo só o Tempo me aceitou trazer até aqui?

  • Porque só o Tempo é capaz de entender um grande Amor ( como você)!”

Se me fosse permitido dar continuidade a essa história de autor desconhecido, eu acrescentaria:

Amor e Sabedoria casaram-se, tiveram uma filha, que foi batizada com o nome de Generosidade e os três viveram felizes para sempre, bem lá no alto da montanha, longe das intempéries e livres de quaisquer ameaças...



Escrito por Clerzinha às 20h26
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ADOLESCÊNCIA

No meu entender, passado, presente ou futuro não existem por si só. São apenas referências necessárias à minha compreensão racional, eternamente dependente de enquadramentos, formatações, análises e sínteses. Para o imaginário, tanto quanto para o emocional, o tempo é uno, pronto para ser vivido, saboreado ou sentido no Aqui e Agora, uma dimensão tão vasta, que me permite voar num devir constante, ou dar ré, em busca do eterno retorno...

Tenho quatorze anos de idade, frequento o curso ginasial, sou uma adolescente ingênua, muito curiosa e romântica. Durante as aulas de Ciências Naturais, sinto-me enormemente atraída pela figura ímpar de meu professor, homem maduro, de rosto anguloso e corpo magro, sem nenhuma beleza para deliciar meus olhos, porém, com muita, muita inteligência, a ponto de atrair toda a minha admiração, voltada neste instante para a sua pessoa. Ele me revela, às vezes sorrindo, às vezes sisudo, segredos importantíssimos do corpo humano, da fauna e da flora. Trata-se do único ser que, até agora, teve a bondade de me apresentar formalmente a um esqueleto de gente de verdade, sem carnes ou texturas, mas com ossos bem dispostos e limpinhos, cada qual em seu lugar adequado, uma verdadeira obra da arquitetura divina, na qual eu posso tocar, por ser uma estudante. Quantas coisas importantes ele conhece! Fico deslumbrada com tanto saber e não consigo controlar meu impulso de dividir com a colega de trás este sentimento tão grande, quanto inoportuno...

  • Quando eu tiver um namorado, quero que ele seja igualzinho ao “Seu Cruz”, um homem sábio!

Antes que minha amiga me possa dar qualquer resposta, ainda de costas, percebo interrupção na fala do professor que, lentamente, vai caminhando em minha direção, até parar e exclamar em tom enérgico:

  • Seu 36 (meu número de chamada), faça o favor de se virar para a frente, a aula é pra lá (apontando a lousa), pare de cochichar, fique quieta!

Ainda bem que ele não conseguiu ouvir o que eu disse à outra.... Parece também que nunca é capaz de perceber o quanto me faz sentir importante – ao invés de envergonhada – nestes momentos solenes de admoestação verbal, que sempre ganham o significado de atenção preciosa, um tijolinho a mais, para eu utilizar na construção de minha autoestima feminina...

A aula termina de maneira satisfatória para mim. Toda a classe se dirige ao ginásio, a fim de assistir à final do campeonato interno de Vôlei. Como tantas outras meninas, fixo na quadra meu olhar mais que interessado na performance de nossos atletas, todos lindos, com seus corpos suados e naturalmente sarados, sempre dando um belo show de competência esportiva e... masculinidade!

Meus olhos se perdem do todo, movimentando-se sempre na direção de um deles, o francês, aluno novato da escola, porém já muito bem conhecido, principalmente da população feminina...

Volto-me novamente para minha amiga e confidente, desta vez sentada ao meu lado, na arquibancada de cimento:

  • Quando eu puder namorar, vou querer arranjar um namorado igualzinho ao Jean Pierre, lindo, forte, vencedor e, ainda por cima, francês!!!

A partida termina, todos gritam, batem palmas, pulam de contentamento e eu também, sem sequer ter-me dado o trabalho de conferir o placar, bem à minha frente...



Escrito por Clerzinha às 07h36
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BONECA DE NOIVA

 Quando tinha seis anos de idade, apaixonei-me por uma boneca vestida de noiva, que compunha a modesta vitrine natalina de pequena loja do bairro pobre onde eu morava. Estávamos – eu, minhas mãe, tia e um primo, moleque de doze anos – aguardando no ponto, o bonde que nos levaria ao centro da cidade, para fazermos as compras de Natal, quando a vi, de pé, toda vestida de rendinhas e tule brancos, bem segura em sua embalagem original e envolta em papel celofane. Não consigo precisar quais emoções me provocou, só sei que, depois do primeiro olhar, desejei-a ardentemente para mim; foi mesmo paixão à primeira vista... Fiz grande escarcéu após ouvir a recusa de D. Ceci em me transformar na mais nova proprietária daquela oitava maravilha do mundo, que estava totalmente à minha disposição, somente por alguns míseros cruzeiros... As reivindicações movidas a choro continuaram pelos trilhos e ao ritmo do bonde camarão, até nossa chegada ao destino anteriormente proposto.

Já na cidade, depois de entrarmos numa loja de departamentos, voltei ao meu bom humor de sempre, encantando-me desta feita com dois ou três pianinhos que tocavam de verdade e até possuíam pequenos assentos de madeira para as crianças se sentarem. Eu sabia dedilhar o “Vem cá Bitu” e, assim sendo, considerei-me digna de tocar no brinquedo, linda e pequena réplica do instrumento mais fascinante que eu conhecia até então.

- Nunca tive um pianinho!

Pouco tempo depois, na noite de Natal, recebi de Papai Noel uma caixa muito bem embrulhada, com laçarotes, papel colorido e, dentro dela, a boneca de noiva, que tanto choro me havia provocado dias atrás. Não me lembro de haver ficado contentíssima com o presente, levando-se em consideração o fascínio do primeiro encontro... Também não consigo lembrar-me de com ele haver brincado, com ele haver saído à rua para exibi-lo às outras crianças, ou ainda, de tê-lo conservado junto a mim por muito tempo. A boneca desaparece de minhas lembranças, após aquela noite de 24 de Dezembro...

Ao me recordar desses fatos, vem-me à mente uma chuva de indagações, com respingos para todos os lados, desde os relacionados a questões ligadas ao comportamento e à educação infantil, de modo geral, até os restritos, que têm a ver única e tão somente com minhas idiossincrasias.

  • Que rumo diferente, do ponto de vista emocional, eu poderia ter seguido, se meu legítimo desejo de possuir aquela boneca de noiva tivesse sido atendido de imediato, no auge de sua emersão, ou, ao contrário, se nunca o tivesse sido?

  • Existem elos entre alguns de meus comportamentos posteriores e aquela situação marcante, vivida em duas etapas tão diferenciadas?

  • Deve-se atender, de imediato, determinados pedidos de uma criança? É possível reconhecer-lhes a pungência, bem como sua importância para o desenvolvimento satisfatório de uma Inteligência Emocional?

Fico sem as respostas que, aliás, me seriam de pouca utilidade nesta minha atual fase de vida. Já fui educada e educadora, portanto, vítima e algoz... Hoje, tudo é passado e o presente tem outras prioridades.

O que sei muito bem é que continuo sendo pessoa de querer frouxo, principalmente em relação à aquisição de objetos materiais - todos os presentes acabavam caindo no meu agrado – um detalhe que não significa dizer que eu costumo avaliar meu desejo infantil – ou o de qualquer outra pessoa - apenas através de uma ótica materialista, consumista ou mesmo comportamental; há afetos importantíssimos envolvidos, tanto nessa, como em outras questões semelhantes.

Retomando o fio da meada, fato é que desisto facilmente de meus projetos, mesmo os reconhecidamente importantes, porém jamais dos meus sonhos, que sempre podem contar com a minha imaginação... Eles e ela são sempre atuais, coloridos, voláteis, não fazem volume na mente, são amigos do coração e nunca ofereceram risco ao meu diabetes... Todavia, esse é um tema que pode ficar para outra ocasião, quem sabe num momento mais oportuno.



Escrito por Clerzinha às 17h28
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RENOVAÇÃO

Desde a vida intrauterina, vi-me obrigada a lidar com rejeição. Trago-a impressa, não no meu DNA, mas nos receptores de minhas células, que acabaram viciadas nesse sentimento inaugural. Venho aprendendo (ao vivo e em cores): um fato gera uma emoção e esta pode dar início a um condicionamento que, em muitas situações, costumamos identificar como vício. Também é do meu conhecimento que a integridade de um ser humano, do ponto de vista de seu desenvolvimento psicoafetivo, compreende coerência entre o pensar, o falar, o sentir e o fazer. Obviamente, esse tipo de abordagem complicada não combina com o estilo deste blog, despretensioso por natureza, muito embora eu, sua responsável, me considere pessoa bastante pretensiosa, em relação à exploração de novos saberes, em especial os que me revelam novidades sobre mim mesma.

O importante, por ora, é que eu possa colocar para fora um pouco do que está sobrando dentro de mim e que me incomoda sobremaneira, a ponto de me ver obrigada a escrever, escrever, escrever, vez que não posso falar, falar, falar...

Creio, e com alguma certeza, que me tornei proprietária de um organismo profundamente conhecedor do significado das palavras desacolhimento, ostracismo, indiferença, em função do alto número de NÃOS que recebi – e ainda venho recebendo - desde o início de minha trajetória por este planeta, segundo resultados anotados no meu livro de contabilidade existencial. A somatória das frustrações vem crescendo, muitas delas sem chance de superação, dado o remoto poder de seu acúmulo nesta mente, desde seu período mais imaturo. Por conta disso, necessito saber lidar muito bem com os limites de minha intolerância, a fim de não me dar a chance de um colapso...

Não sabendo COMO e, principalmente, me sentindo impotente para lutar contra as demandas contrárias aos meus desejos, vejo-me meio perdida, tal como me via no período da adolescência, com a diferença de que hoje me falta ânimo para novas bravatas contra o destino, esse eterno desconhecido, sempre surpreendente, seja para me mostrar o lado belo da vida, ou para me apavorar com os horrores do mundo... Sem vislumbrar outra opção, renovo um vício da infância, que consistia em:

SE VOCÊ NÃO PODE VENCER O INIMIGO, ALIE-SE A ELE!

Essa é a velha máxima que subjaz à moral de alguns filmes e desenhos de épocas passadas... É possível que, ao praticá-la com a consciência de adulto, eu possa descansar minha mente ofegante e inquieta, neste meu período incerto de vida...

Tentarei apagar, deletar de meus arquivos remotos todas as imagens afetivas que me empurram “para baixo”, estejam elas vinculadas a pessoas muito próximas, distantes, importantes ou desimportantes, principalmente as que, por momentos, dias ou anos ocuparam espaço em meu coração... Preciso desocupá-lo - como se fora o “jardim do Quintana” (ou de quem quer que seja...) - deixando livre alguns canteiros para receber “novas borboletas”...

E, se ainda for capaz, com a irresponsabilidade e desprendimento da juventude, tão crédula e crente quanto conseguir ser, prometo a mim mesma que, daqui prá frente, em caráter irrevogável,

SÓ VOU GOSTAR DE QUEM GOSTA DE MIM!”



Escrito por Clerzinha às 11h19
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TUDO MENTIU

Trago a poesia em minha herança genética, apesar de não haver desenvolvido, até agora, esse talento tão gentil. Couberam-me apenas a sensibilidade e a ilusão dos poetas românticos e essas levarei para a eternidade. Consigo sentir ternura, asco, alegria, deleite ou tristeza em expressões e olhares.... Também sou capaz de ver beleza ou horror a mais, luz e sombra acentuadas em tudo o que me rodeia, assim como posso sentir de longe o cheiro da verdade, tanto quanto o odor desagradável da hipocrisia ou da dissimulação, em palavras e gestos alheios... Sou sensível, sem chegar a ser paranóica, bastante consumista, em se tratando de emoções, uma vocação que eu trouxe de lá... Como Cazuza, posso afirmar:

 Eu sou mesmo exagerada!

Quase tudo o que sobra e que meu metabolismo não consegue abarcar, despejo neste blog – minha caçamba de reciclável - pois não tenho outro canal de escoamento, a exemplo de minha prima Rute, poetisa que, em sua época, teve reconhecido seu talento. Ela é a autora do singelo poema que transcrevo abaixo, repleto de poesia quase imatura, tristeza e resignação, únicos sentimentos que consigo evocar nesta data que, desde nove anos atrás, acabou-se transformando para mim em mais um dia de culto solene à saudade!

 

TUDO MENTIU

 

Tudo me conta

que você morreu.

A flor, o vento,

Os pássaros calados

e a penumbra

que ao céu escureceu.

 

Silêncio, preces,

Esta inquietude louca

Gotas de orvalho, nas folhas,

que são pranto

E o desespero

Envolvendo a tarde morna.

 

Porém,

Tudo mentiu

Você é eterno,

O seu olhar

Eu tenho nas estrelas;

Ouço o seu riso

No marulhar das ondas;

O seu corpo

Nas nuvens entrevejo.

 

Tudo mentiu

Eu sei,

Você é eterno.

E se era antes

para mim, felicidade,

Vive agora

dentro de mim

como saudade.

 

 



Categoria: Afeto
Escrito por Clerzinha às 07h58
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GRATIDÃO

Para mim, fica quase impossível falar desse sentimento, sem introduzir em meu discurso um outro, antagônico – a Inveja – qualificado como maldito por alguns, temerário, para outros, e até mesmo oportunamente vivenciado com certo glamour, pelo segmento mais competitivo desta nossa sociedade, que parece não saber lidar muito bem com a admiração... Inveja, sim, letra maiúscula, dada a grandeza de sua disseminação entre os seres que frequentam nosso planeta.

Ouvi, por aí, que o sentimento primário anterior à inveja é o medo – medo de não ter – portanto, sendo ela secundária, me parece possível que se possa aprender, não apenas a administrá-la com sucesso, mas até a eliminá-la por completo de nossa convivência. Tive oportunidade de comprovar que as reações invejosas não conseguem sobreviver no mesmo espaço onde se cultiva a gratidão e, por conta disso, venho-me empenhando junto ao passado na busca de remotas ações de terceiros – pais, parentes, amigos, conhecidos e até prováveis inimigos fortuitos – onde eu possa vislumbrar sabores, odores ou cores diferenciadas que me remetam a esse sentimento delicioso. Ele me arrebata, ainda que por momentos, da aridez de algumas realidades com as quais me vejo obrigada a conviver no dia a dia; me enleva e me faz sentir importante!

Hoje, estou tentando ventilar, através deste universo digital, minha gratidão a algumas pessoas que, num dia qualquer do ano de 1945, acolheram em sua casa uma mulher de trinta e sete anos de idade, que se via totalmente abandonada, desamparada, dependente e insegura em relação a si mesma e ao futuro de uma criança que trazia em seu ventre. E a criança insistiu em nascer, sem dar importância ao fato de que poderia estar sendo inoportuna e indesejável no espaço que ocuparia, a partir de um lar que não era seu.

 

Obrigada, vó Piedade!

Obrigada, tio Cunha!

Obrigada, tia Helena!

 

E obrigada, mãe, por não ter tido coragem de me jogar no lixo!



Categoria: Compartilhar
Escrito por Clerzinha às 10h42
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Roubaram Meu Mundo

“As pessoas não se dão o trabalho de escutar um velho, e é por isso que há tantos velhos embatucados por aí, o olhar perdido, numa espécie de país estrangeiro”- (Leite Derramado – Chico Buarque de Holanda).

Existem coisas que não se pode dizer, a não ser por escrito, até mesmo porque, de outro modo, jamais seriam ouvidas... A afirmação acima é uma delas.

O descaso com a velhice, cada vez mais e mais fica patenteado em nosso cotidiano, muito embora a publicidade e o mercado, sempre focados em seus próprios interesses, façam questão de ressaltar imagens contrárias a essa realidade que ninguém (nem mesmo os próprios velhos) pretende explorar...

Sinto-me como poderia sentir-se uma pessoa que, tendo trabalhado anos e anos para adquirir bens materiais para o seu conforto, ao atingir tal objetivo, de repente, se vê assaltada por meliantes que lhe roubam tudo, deixando-a nua, como nasceu e ainda tendo de lhes agradecer por lhe estarem poupando a vida...

Parece que, hoje em dia, ninguém consegue perceber que sempre necessitamos do apoio uns dos outros e, nessas circunstâncias, as diferenças, principalmente as etárias, perdem sua importância. Alguns animais, a despeito de serem por nós tidos como irracionais, conseguem superar grandes dissensões e trilham juntos caminhos que seriam impensáveis para espécies não semelhantes, como no caso de um hipopótamo – com menos de um ano de idade – que adotou como mãe uma tartaruga com mais de cem anos de idade. Vivem juntos, ele fica agressivo quando alguém dela se aproxima, acaricia-a, até dormem muito próximos um do outro.

Esse verdadeiro exemplo sobre “capacidade de enxergar além das diferenças do outro”, tive oportunidade de constatar quando assisti a um documentário sobre o último tsunami que assolou países asiáticos. Confesso que, naquele momento, senti inveja da centenária tartaruga e desejei que meus filhos fossem, ao invés de lindos, elegantes e inteligentes exemplos da espécie humana, apenas desajeitados e obtusos hipopótamos...



Categoria: Envelhecer
Escrito por Clerzinha às 01h37
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QUEBRANTO

 Nas ocasiões oportunas, costumo presentear os amigos, especialmente as pessoas que amo. O ritual - ir às lojas, livrarias, chocolatarias, etc. - para escolher um regalo é, na atualidade, a única atividade ligada ao consumo que ainda me proporciona prazer, motivo pelo qual a considero o Ofertório de minha Missa particular e profana.

Hoje, excepcionalmente, estou abrindo mão dessa rotina, a exemplo de certos religiosos que costumam cumprir seus ofícios através da TV... Esta oferenda é virtual – atalho por mim não apreciado para trocas afetivas – mas a doação é legítima, tanto quanto meu bem querer à pessoa que deverá recebê-la numa fria e promíscua tela de computador.

Embrulhado para presente de aniversário, devolvo ao próprio autor este delicioso poema, publicado há mais de vinte anos:

 

“Quebranto caiu em mim

Silente, envolvente

Exposto ao mel

 

 

Perplexo, esvaziei

O coração maduro

De gosto puro

E deixei

Em ti ficarem

Partes que tangem

E se congruem;

Sou o apelo feito dente

E crente, sou afim

 

 

Em lamas condensadas

Escorrego um carinho

Em teu peito, sou pequeno

Quando busco teu ninho”

 

 

Lamento não poder abraçá-lo pessoalmente – como requer meu desejo – mas faço votos de que, apesar da dissidência, o poeta ainda possa contar com a mesma inspiração dos tempos de juventude, para poder chegar íntegro e inteiro ao momento da Consagração de sua Missa, ratificando assim o nosso santo ofício de viver!



Escrito por Clerzinha às 07h44
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Bilhete

 Ao

Meu Amor da Velhice

 

Estou aqui,sentada no meu recém construído trono de velha, aguardando tua chegada.

Acredito que virás, pois creio obstinadamente que me procuras. Te acolherei com a vibração das últimas ondas de calor que ainda passeiam pelo meu corpo e, no futuro, com minhas mãos enrugadas, poderei encher-te de afagos, aqueles mesmos, os motivadores do apego à vida, aos felizardos que, enquanto ela dura, conseguem descobrir o “sentido humano da pele”.

Sei que não se faz necessário buscar-te em sítios alheios, pois estás muito mais próximo de mim, do que é capaz de supor esta minha mente viciada em estudar possibilidades... Sei também que, juntos, faremos cumprir um roteiro existencial, o qual certamente por nós não foi escrito, mas por nós deverá ser interpretado, até o último ato.

Poucas palavras a um tanto considerável de fé e muita, muita esperança...

Amém!



Categoria: Envelhecer
Escrito por Clerzinha às 12h02
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MENINO PASSARINHO

 O fundo musical de hoje, que ecoa através do silêncio de minha privilegiada memória auditiva, é a canção:

 

"Quando estou nos braços teus,

Sinto o mundo bocejar

Quando tu estás nos braços meus,

Sinto a vida descansar

No calor do teu carinho,

Sou menino passarinho

Com vontade de voar...

Sou menino passarinho

Com vontade de

Voar.."

 

Da vontade, ao ato: meninos passarinho sempre acabam voando, por mais aconchegados que se sintam... Vida cumprindo seu destino, voar é preciso!

Ninho vazio, silêncio barulhento, licença para deixar entrar o eco do refrão de outra melodia, desta vez nada antiga:

 

"E quando o sol se for

E o frio me tocar

É com você que eu vou estar"

 

E eu ainda ouso acrescentar, por minha conta e risco:

Num Dia Branco,

"P'ro que der e vier

Comigo!”.

 

 

 



Escrito por Clerzinha às 19h40
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CONVERSATÓRIA

Todos os dias, acordo com muita vontade de conversar. Refletindo sobre essa minha disposição, acabo concluindo que estou apenas dando continuidade a um hábito herdado de minha família de origem. Lembro-me de que, nos lares onde convivi quando criança, as pessoas costumavam falar sobre seus sonhos noturnos enquanto preparavam ou tomavam o café da manhã. De acordo com minhas lembranças, ainda nada esmaecidas, todas podiam contar com ouvintes para as suas histórias comuns, senpre repletas de colorido e detalhes que às vezes lhes rendiam bons palpites para o jogo do bicho. Eram todos muito ricos, sem exceção, pois podiam até jogar coversa fora!

No meu caso, porém, as conversas matinais nada têm a ver com sonhos, os quais deixei de compartilhar, desde a época em que abdiquei da psicoterapia. Hoje, limito-me unicamente a digeri-los, quando se mostram complexos, ou a vivê-los intensamente, quando me dão prazer. Meu assunto é outro e, na maioria das vezes, por não contar com auditório, coloco em conversatória as duas partes carentes de minha comunicação: a que fala e a que ouve. - Ah, como elas se entendem bem, dá gosto ver!

A que fala costuma caprichar bastante no vocabulário e no uso da gramática, pois conhece o alto grau de exigência de sua interlocutora, além de não permitir jamais o surgimento de brechas às más interpretações, inimigas dos diálogos bem sucedidos... A outra, por sua vez, permanece atenta, com olhos e ouvidos fixados na direção do discurso que está sedo apresentado, cuidando também para que não hajam interrupções desnecessárias, principalmente quando estas não se mostram capazes de assumir o significado de entusiasmo sincero ou de consideração manifesta.

Das conversas baratas, gravadas a partir de minha memória infantil, ávida de novidades para a satisfação de uma natural curiosidade, até os diálogos internos entre as duas partes de um todo que já entrou em franco envelhecimento, todas as manhãs destes caros dias mal sucedidos me vão revelando a profundidade de um buraco vazio, que debalde aguarda ser preenchido...

- Pobre me considero, porque não consigo abrir mão de conversar, ainda que seja apenas com a solidão!

 



Escrito por Clerzinha às 11h31
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